Armadura espiritual de Deus – 3ª peça ou arma – Calçar os pés na preparação do evangelho da paz
“E calçados os pés na
preparação do evangelho da paz;” (Efésios 6:15).
Na língua grega o termo “calçados os pés” (greg. “hupodeo”) é uma elocução que
significa calçar o sapato ou abaixar-se para amarrá-lo (Marcos 6:9 e Atos 12:8),
demonstração que alguém decididamente se dispôs a sair para ir fazer algo ou
cumprir uma missão. Equipar os pés com sapatos atados também é sinônimo de
treinamento, preparação e disposição de permanecer em pé e não cair em tentação
por falta de vigilância - “Aquele, pois,
que cuida estar em pé, olhe que não caia.” (I Co 10:12). Os ataques,
oposições e ventos malignos contrários sempre aparecerão no caminho dos santos,
contudo se o homem ou a mulher permanecer vigilante e firme na Rocha, não
cairão.
Qualquer
pessoa que se propor a pregar ou semear a palavra de Deus será confrontada
fortemente pelo inferno, pois Satanás odeia mortalmente quem, municiado do
conhecimento da verdade e sob a luz do evangelho, prega a palavra de Deus,
libertando assim das trevas as almas que ele mantinha aprisionadas. Isso é
confirmado na vida de todos os pregadores e ficou registrado no ministério do
apóstolo Paulo, pregador e semeador incansável do evangelho de Deus na Igreja
Primitiva – “Por isso bem quisemos uma e
outra vez ir ter convosco, pelo menos eu, Paulo, mas Satanás no-lo impediu.”
(I Ts 2:18). Satanás não disfarça seu ódio pelos pregadores, pois são esses
homens que “ousam” arrancar das suas garras e domínio almas oprimidas e
escravizadas e transportá-las para o reino do Filho de Deus (Colossenses 1:13-14).
Imagina-se
se qualquer pessoa pudesse subir no púlpito e pregar a palavra Deus, mesmo sendo
novata na fé, sem experiências espirituais, sem testemunho de vida e
conhecimento da palavra de Deus, com certeza a Igreja colocaria em descrédito o
poder e a glória de Deus.
Mas,
desde os tempos antigos, a função de sacerdote e a dos demais ministros da
palavra está reservada a homens escolhidos por Deus, homens com fé aprovada (I
Ts 2:4) e autoridade confirmada como se fez com Arão quando Coré, levita e
primo de Arão, avocou-se para si e para outros israelitas o mesmo direito de
ministrar a palavra da lei diante da tenda da congregação como faziam Moisés e
Arão, o que redundou na morte trágica desses levitas rebeldes (Números 16:31-40) e
no florescimento da vara de amêndoa de Arão (Números 17:6-8), confirmando que o
sacerdócio na nação de Israel deveria ser exercido por Arão e seus descendentes
conforme a escolha divina anteriormente feita, por meio de um chamado de Deus a
Arão. A escolha de líderes cristãos também está prescrita no novo testamento (I
Tm 3:1-7, Tito 1:6-9), sobretudo “porque há
muitos desordenados, faladores, vãos e enganadores, principalmente os da
circuncisão, Aos quais convém tapar a boca; homens que transtornam casas
inteiras ensinando o que não convém, por torpe ganância.” (Tito 1:10-11).
De
sua parte, a frase “na preparação”
(greg. “hetoimasia”) é o ato de se
preparar, condição de uma pessoa ou coisa de estar pronta ou preparada,
prontidão, disposição.* Portanto, “na
preparação” entende-se como sendo a condição indicativa que uma pessoa foi
preparada no evangelho de Cristo, está pronta, em prontidão espiritual e à
disposição para marchar em direção às linhas inimigas – qualquer casa, igreja
ou lugar onde há um incrédulo aprisionado pelo engano do diabo. Logicamente,
esta preparação tem unicamente sentido espiritual, a indicar que antes de marchar
em direção à batalha que o espera, o cristão necessita sair em busca de prévia
preparação que se inicia com o conhecimento da palavra da verdade e ações de
graças – consagração de vida, louvor, oração, jejum e adoração a Deus -, que é
a prática e a experiência espiritual que o sustentarão nos embates que
enfrentar.
Importante
frisar que por este ensino da armadura espiritual de Deus somos instruídos pelo
apóstolo Paulo que referida necessidade de prévia preparação no conhecimento e
entendimento do evangelho aplica-se tanto para o cumprimento do “ide” deixado por Jesus Cristo a todos os
cristãos – “E disse-lhes: Ide por todo o
mundo, pregai o evangelho a toda criatura.” (Marcos 16:15), quanto aos que
executam função ministerial (Efésios 4:11) ou serviço nas igrejas locais (Tm
3:8-13).
Ou seja, biblicamente a expressão “calçados os pés na preparação” é o ato de alguém ir voluntariamente a campo para cumprir uma missão, porém, antes de executá-la, teve uma prévia capacitação no evangelho de Deus, geralmente com base num chamado divino. Isso se dá porque a força e o poder do crente que proclama publicamente o evangelho tem que ter por fundamento a graça que há em Cristo, a qual opera por meio da sua palavra. Possuir esse revestimento espiritual da palavra da verdade é estar debaixo do agir e do poder do Espírito Santo, em permanente prontidão espiritual para entrar em combate quando surgirem circunstâncias inesperadas que comumente atravessam o caminho de todos que semeiam a verdade entre os ímpios, na esperança que os mesmos, após ouvirem as boas-novas do evangelho da paz convertam-se a Cristo e recebam a salvação eterna.
Os soldados andavam longas distâncias até
os campos de batalhas, por isso que a analogia de um combatente viajando pelas
estradas, para enfrentar os inimigos, foi aplicada aos cristãos que saem para
ministrar a palavra do evangelho ou orar pela libertação de almas oprimidas
física e espiritualmente. As andanças como mensageiro das boas-novas do
evangelho normalmente é um ministério ou serviço a ser feito dentro da comunhão
e da paz que temos com Deus, único estado de espírito compatível com todos os
que andam pelos caminhos anunciando as boas novas da salvação - “E como pregarão, se não forem enviados? Como
está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que
trazem alegres novas de boas coisas.” (Romanos 10:15, Isaías 52:7).
A
expressão “quão formosos são os pés”
mostra o tamanho do agrado e satisfação no coração de Deus para com todos
aqueles que de coração voluntário (Salmos 51:12) se preparam e saem para anunciar
as boas notícias da salvação. Enquanto o mundo valoriza o rosto bonito, a
performance física atraente e as demais expressões corporais estéticas, Deus
elogia os pés empoeirados e calejado de seus mensageiros, em manifesta
valorização do trabalho, esforço, retidão de conduta e fidelidade dos que assim
agem para ganhar almas para os céus.
Esta palavra igualmente serve de alerta
para todos os crentes acerca da necessidade de andarem por caminhos retos e com
santidade de vida. Isso também foi ensinado de modo figurado na velha aliança,
em relação aos homens escolhidos para se aproximar de Deus e ministrar ao povo
de Israel, que eram os sacerdotes aarônicos. Naquele tempo, exigia-se dos
sacerdotes que fossem santos e retos, pois foram deixados por Deus como exemplo
de santidade e pureza entre o povo. É por isso que no instante que um
descendente de Arão era ungido sacerdote colocava-se sangue de um carneiro no
dedo polegar de seu pé direito, marca que tinha por intenção lembrá-lo de que
para servir a Deus deveria andar por caminhos retos, pois seus pés foram
consagrados diante do altar do Senhor (Êxodo 29:20).
Israel era um reino sacerdotal, daí o
motivo dessa unção divina especial comprometendo os sacerdotes com a pureza de
vida e com a responsabilidade da função de ministrarem a palavra de Deus ao
povo - “E para fazer diferença entre o
santo e o profano e entre o imundo e o limpo, E para ensinar aos filhos de
Israel todos os estatutos que o Senhor lhes tem falado por meio de Moisés.”(Lv
10:10-11).
Nós, os cristãos, também somos um reino
de sacerdotal - “Mas vós sois a geração
eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis
as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;”
(I Pd 2:9) – de modo que todo convertido que serve a Deus possui essa mesma
responsabilidade de conduta moral e ministerial de anunciar o evangelho do
reino de Deus e do seu Cristo, vez que para tanto fomos lavados e remidos pelo
precioso sangue de Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus.
Logo, retidão de conduta e conhecimento
da palavra de Deus são vocações sacerdotais de todo convertido a Cristo, vez
que pertencemos a um reino de “sacerdócio real”, o que é superior à função do
sacerdote da velha aliança que atuava como intermediário entre o pecador e
Deus, pois neste tempo da graça cada cristão entra diretamente na presença do
Pai, pelo novo e vivo caminho aberto até o trono da graça pelo sangue de Jesus
Cristo (Hebreus 10:19-20). Ou seja, somos sacerdotes reais porque vivemos em Cristo,
como filhos do Deus Altíssimo, de modo que, repisa-se, o parentesco espiritual
com Cristo faz de cada convertido um rei e sacerdote para Deus – “E nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu
Pai; a ele seja glória e poder para todo o sempre. Amém.” (Apocalipse 1:6, Hebreus 8:1).
Em
suma, Deus entregou aos sacerdotes aarônicos e a todos os cristãos o mesmo
propósito de vida: Vida santa e proclamação da palavra de Deus, pois dessa
função depende a vivificação das almas que estão em pecados, a fim de herdarem
a vida eterna. Hoje a preparação dos sacerdotes de Deus não se faz mais pelo
conhecimento da lei mosaica, e sim com o conhecimento do “evangelho da paz”, pois cada cristão é um embaixador de Cristo através
do ministério da reconciliação (II Co 5:18-20), para proclamar que Deus, por
iniciativa própria, e em Cristo, reconciliou o mundo consigo mesmo. Assim, não
mais existe inimizade entre Deus e os homens por causa do pecado (Isaías 59:2),
devido a paz que encontramos em Cristo, a qual é anunciada pelo evangelho de
Deus.
Deus Bendito, Pai Grandioso, pedimos ao Senhor que sejamos revestidos de capacidades, talentos, dons, autoridade e fortalecimento espirituais para, com santa ousadia e discernimento, proclamarmos o “evangelho da paz”, para a honra e a glória do seu nome e do nome do Senhor Jesus Cristo.
* Dicionário Strong