Estudo Bíblico

Armadura espiritual de Deus – 6ª peça ou arma – A espada do Espírito

Armadura espiritual de Deus – 6ª peça ou arma – A espada do Espírito

  • Éder de Souza
  • Tempo de Leitura 7 Minutos

Tomai também o capacete da salvação, e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus;” (Efésios 6:17).

Iluminados pela luz da palavra de Deus, chegamos à penúltima peça da armadura espiritual de Deus. Aqui se verifica quanto é impróprio chamar de armas as cinco primeiras peças anteriores dessa armadura dos cristãos, pois somente a palavra de Deus é citada como arma, que é a espada do Espírito – Preste atenção que é o próprio Deus que compara sua palavra a uma espada ou arma ofensiva de grande eficiência em combate. Aliás, ele diz que sua palavra não só é uma arma poderosa como é viva e eficaz e mais penetrante que espada de dois gumes (Hebreus 4:12), para demonstrar a capacidade dela penetrar as profundezas da alma e do espírito, igualmente faz esse tipo de espada duplamente afiada, dotada da ação perfurante mais letal usada nos tempos bíblicos.

No antigo testamento o uso da espada era literal, dada sua eficiência como arma de ataque, pois dificilmente o inimigo resistia aos ferimentos de suas estocadas na região do abdômen (Provérbios 5:4). Os soldados a consideravam a melhor das armas no ataque aos inimigos, a ponto da narrativa bíblica dos justos imaginar que o próprio Deus usava uma espada contra seus inimigos - Levanta-te, Senhor, detém-no, derriba-o, livra a minha alma do ímpio, com a tua espada;(Salmos 17:13:12). Pelo visto, até os anjos usam espada (Gênesis 3:24). Homens santos e justos usavam espadas para matar inimigos. Davi matou Golias com uma espada (I Sm 17:50-51) e o profeta Samuel despedaçou o rei Agague na frente do rei Saul também com uma espada, (I Sm 15:33).

Todavia, embora de alta letalidade no combate, o uso da espada requeria treinamento rigoroso e intenso – era extenuante fisicamente e durava meses a preparação - para se adquirir fortalecimento muscular, resistência, destreza e habilidade no manejo da “gladius”, a espada curta de dois gumes (com cerca de 60 a 70cm), principal armamento dos legionários do exército romano. As legiões romanas, formadas por cerca de 6.000 soldados, eram a elite da arma de guerra do Império Romano, sobretudo no combate aproximado, formadas exclusivamente por cidadãos romanos, tropa de homens altamente treinados e com especial habilidade no uso da espada e do escudo (“scutum”). O nome original da espada de dois gumes, “gladius” ou gládio, deu origem aos gladiadores, escravos que lutavam nas arenas romanas até a morte.

Analisando o intenso treinamento bélico e a dedicação combativa na destruição dos inimigos pelas legiões romanas, podemos afirmar enfaticamente que as batalhas espirituais não são para principiantes, pois os demônios se compararam com essas legiões diante do Filho de Deus, evidentemente não só pela quantidade de demônios envolvida como pela valentia que ainda demonstram em não libertar suas vítimas oprimidas, contudo uma legião demoníaca não foi páreo para resistir a Jesus – E perguntou-lhe: Qual é o teu nome? E lhe respondeu, dizendo: Legião é o meu nome, porque somos muitos.” (Marcos 5:9, Lucas 8:30).

Entrementes, nesse treinamento árduo dos soldados romanos havia uma particularidade, qual seja, não se treinava com a espada isoladamente, pois o condicionamento do seu manejo ocorria sempre em conjunto com o escudo. O escudo no braço esquerdo do legionário ou do gladiador defendia-lhes da espada inimiga, ao tempo que sua espada era espetada procurando uma brecha na defesa oponente. Portanto, a eficácia da espada estava diretamente associada ao bom desempenho concomitante no uso do escudo.

No entanto, o novo testamento trouxe uma linguagem nova para o uso da espada, abandonando sua terminologia de uso bélico literal, porquanto inovou metaforicamente associando a pregação da palavra de Deus com o manejo habilidoso da espada por um guerreiro quando perfurava eficazmente o inimigo – Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.” (II Tm 2:15). Neste tempo da graça, a vocação de todo cristão é de alguém que maneja bem a espada do Espírito, capacidade que pressupõe conhecer a Bíblia, ter compreensão, discernimento e perfeito entendimento de suas mensagens, servindo ao Senhor com base nos ensinos e conselhos bíblicos.

Aqui se torna inadiável entender que sem o escudo da fé (Efésios 6:16) – que é a confiança inabalável no poder da palavra de Deus, mesmo ante o impossível, e fé fundada na cruz de Cristo, nela está nossa total redenção, vindo da cruz todos as bênçãos e benefícios dos cristãos – de nada adianta ler, levar para a igreja, decorar ou encher a mente de textos da Bíblia, pois sua eficácia como arma depende da fé provada e aprovada dentro do coração.

Um dia falaram para o salmista fugir para o monte como um pássaro, pois lá não seria alcançado pelos inimigos que já estavam próximo dele, estando tão próximos que até já tinham colocado flecha na corda do arco, porém ele respondeu que se fugisse não mais teria fundamento de ser um crente e viver pela fé em Deus – “No Senhor me refugio. Como dizeis, pois, à minha alma: Foge, como pássaro, para o teu monte? Porque eis aí os ímpios, armam o arco, dispõem a sua flecha na corda, para, às ocultas, dispararem contra os retos de coração. Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?” (Salmos 11:1-3). Ora, vai ter situações que chegarão conselhos iguais a esse, porém o justo permanecerá lutando, não pode fugir nem desistir da luta porque esperará com convicção Deus agir, do contrário perdeu sua principal defesa e ligação com Deus que é uma fé firme e inabalável.

A conversão ao Cristianismo automaticamente alistou todos os convertidos para um exército de combatentes que necessitam de treinamento em batalhas espirituais, a fim de cumprirem as ordens do Senhor dos Exércitos, Cristo, as quais estão prescritas no evangelho do reino de Deus. Sua arma principal é a espada do Espírito, cujo uso eficiente depende do conhecimento e da obediência à palavra de Deus, para que se tenha bom entendimento de todo conselho de Deus (At 20:27), única maneira possível de enfrentar as hostes demoníacas para libertar as almas escravizadas pelas trevas de Satanás - “Este é o dever de que te encarrego, ó filho Timóteo, segundo as profecias de que antecipadamente foste objeto: combate, firmado nelas, o bom combate,” (I Tm 1:18).

A partir deste estágio precisamos indagar o que significa o termo “espada do Espírito”?

Tem-se que, pela boa ordem das ideias, precede ao aclaramento do termo “espada do Espírito” lançar luz sobre a frase “que é a palavra de Deus”, umbilicalmente ligada à definição de “espada do Espírito”, por ser o complemento de referido versículo bíblico.

Na língua grega o substantivo “palavra” pode ser escrito basicamente de duas maneiras, como “logos” (escrita) ou “rhema” (falada). Então, a palavra de Deus registrada na Bíblia pode ser “logos” ou “rhema”. Neste versículo da carta aos efésios a revelação divina usou “rhema” para falar da palavra de Deus - e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus(Efésios 6:17) – ao invés de “logos”, a palavra escrita, a indicar que em batalha espiritual Deus pode falar diretamente por meio de revelações pessoais, seja ao homem, a um anjo ou para dar uma ordem ao mundo espiritual governado pelo Príncipe da potestade do ar, Satanás (Efésios 2:1).

Pouco se comenta da palavra “rhema” no meio evangélico, contudo ela é falada para muitos cristãos e de várias maneiras: “Vai e entrega uma cesta de compra na casa que vou te mostrar.” e a família indicada passava necessidade; “Ora por aquele homem.” e pessoa que aceitou a oração recebe livramento de morte pouco dias depois; “Deus mandou dizer-lhe que, por causa do seu escárnio, antes de você se tornar um adorador, você será quebrado como um vaso.”, vindo o escarnecedor e perseguidor de crentes a sofrer um acidente, quebrou os ossos e paralisou todo o corpo, mas depois é curado milagrosamente; e assim muitos outros testemunhos que a igreja ouve Deus falando de viva voz aos santos, por meio do Espírito Santo.

Superada a distinção prévia acima detalhada, passemos ao que foi proposto que é a análise do termo “espada do Espírito”.

Na mesma trilha de referida distinção, a gramática grega ensina que se o verbo estiver no infinitivo com o artigo no genitivo - verbo tomar (greg. “dechomai”), que é o ato de pegar com a mão, segurar, levar consigo, agarrar, aprender, receber sem rejeitar (Lucas 16:4, 6-7, 22:17, Atos 7:59, II Co 7:15, 11:4, Efésios 6:17, Filipenses 4:18)*, o respectivo artigo no genitivo “do” (“του”) – “του πνευματος – tou pneumatos” = “do Espírito”) -, normalmente não indica possessão, mas indica um propósito. Noutras palavras, a espada não é do Espírito Santo, o Espírito Santo de Deus não precisa de arma para vencer Satanás nem seus demônios, pois ele é Deus, o Deus Espírito, de modo que se deve entender que o sentido do texto não é que a espada pertença ou está com o Espírito Santo, mas que ele tem como propósito de usar a palavra de Deus como uma espada penetrante e mortal, não a palavra escrita, o “logos”, que é a Bíblia (Lucas 5:1, Marcos 7:13, João 5:38:35, 17:6, Romanos 9:6, I Co 14:36, II Co 4:2, Colossenses 1:25, I Ts 2:13, Hb 4:12, 13:7, Apocalipse 19:9:6-7), mas sim a palavra falada, dita ou viva, que é a palavra “rhema”, a voz viva de Deus (Marcos 9:32, Lucas 2:29:5, II Co 12:4, Efésios 5:26:17, Hebreus 1:3:5, 11:3, I Pd 1:25, II Pd 3:2), para atingir eficaz e mortalmente os inimigos espirituais dos santos.

Ou seja, o propósito divino revelado ao apóstolo Paulo, instrui-nos que em dado momento da nossa luta contra os principados, potestades e hostes espirituais de demônios, o Espírito Santo entrará em ação ordenando de viva voz, no reino espiritual, que o mal retroceda e caia por terra diante dos santos de Deus. No entanto, para que este propósito se cumpra é necessário que o coração dos “combatentes” cristãos tenham ouvido e guardado com fé a palavra das Escrituras sagradas dentro de si, a qual é fiel, não desampara nem falha e virá em auxílio dos santos na forma de uma unção de poder irresistível - “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim; porque o Senhor me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos;” (Isaías 61:1, II Co 4:8-9).

Portanto, restou confirmado que o Espírito de Deus tem como propósito permanente, desde o início de cada batalha espiritual, a intenção de agir a favor dos santos, fazendo uso da palavra de Deus contra Satanás e seus demônios, ferindo-os igualmente o golpe de uma espada penetrante, em benefício dos que foram edificados na verdade bíblica, aprenderam e a trazem no coração por meio da fé em Deus e nela esperam porque não falha  - “Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei.” (Isaías 55:11). Isso faz o santo entender que o momento da sua vitória vai chegar, bastando que se mantenha a perseverança. Aliás, é isso que significa a exortação de Paulo quando diz “havendo feito tudo, ficar firmes.” (Ef 6:13) aos que se preparam para a batalha vestindo toda a armadura de Deus.

Percebe-que que a recomendação do necessário preparo prévio de se meditar na Bíblia para conhecer a vontade, o propósito e o poder de Deus, não é uma etapa facultativa do treinamento da capacitação espiritual, sendo, antes, providência obrigatória de quem vai lutar e vencer os inimigos invocando o nome de Jesus Cristo.

Depois que Senaqueribe, rei da Assíria, tomou as cidades fortificadas de Judá, ele enviou seus servos para cercarem e ameaçarem Jerusalém, onde estava Ezequias, rei de Judá. Porém, muito antes da chegada do exército de Senaqueribe em Jerusalém, o rei Ezequias previamente ordenou que se tapasse as fontes de água de fora da cidade, restaurou os muros quebrados, construiu torres, fortificou posições, fez armas e escudos em abundância. Ezequias preparou-se previamente para a peleja. Durante o cerco os assírios blasfemaram o Senhor Deus e tentaram atemorizar o povo que estava sobre o muro, esperando uma rendição dos judeus – Vejam a tática diabólica: quando um líder é combativo espiritualmente, Satanás vai tentar jogar seus liderados contra ele para enfraquecer sua fé e resistência.

Todavia, Ezequias e o profeta Isaías ouviram todas as palavras ofensivas dos assírios e ficaram quietos. Os dois só “oraram por causa disso e clamaram ao céu.” (II Cr 32:20). Em resposta o Senhor Deus enviou livramento a Ezequias e aos moradores de Jerusalém por meio de um anjo “que destruiu todos os homens valentes, os chefes e os príncipes no arraial do rei da Assíria;” (II Cr 32:21). Atentam o que é o poder de Deus: só um anjo matou 185.00 assírios numa noite (II Cr 19:35, Isaías 37:36). Pela oração que Ezequias fez a Deus (II Rs 19:14-19, Is 37:14-20) esse rei judeu reconheceu que a Assíria já tinha destruído muitos reinos, inclusive a Samaria escrava para o exílio, porém confessou crer que o Senhor Deus, criador dos céus e da terra, o livraria das mãos desse inimigo militarmente poderoso.

Interessante, ainda, notar que Deus respondeu a oração de Ezequias rapidamente (II Rs 19:20-34, Isaías 37:21-38) e havia um motivo para isso. Ezequias era um rei piedoso, filho de Acaz, rei idólatra, e logo que assumiu o governo de Judá mandou reabrir as portas do templo do Senhor fechadas por seu pai; removeu os altos, quebrou colunas e postes-ídolos de deuses pagãos; fez uma reforma religiosa de remoção da idolatria do reino de Judá e esforçou-se no chamamento do povo ao templo para adorar o Senhor – “Porque se apegou ao Senhor, não deixou de segui-lo e guardou os mandamentos que o Senhor ordenara a Moisés. Assim, foi o Senhor com ele; para onde quer que saía, lograva bom êxito; rebelou-se contra o rei da Assíria e não o serviu.” (II Rs 18:6-7). Ezequias venceu um exército cruel, violento e poderoso porque se preparou para a batalha buscando Deus de todo coração, não desanimando nem mesmo quando estava cercado pelo inimigo, sem chance de procurar qualquer ajuda externa. Ele só podia olhar para o alto céu e de lá não tirou seus olhos até ser atendido pela espada do Senhor.

Fica evidente que Ezequias fez uma prévia preparação antes de derrotar Senaqueribe, adotando medidas humanas e capacitação espiritual. Podemos ver em sua preparação espiritual, especialmente na destruição dos altares e dos cultos idólatras, zelo fiel na obediência da palavra de Deus – palavra “logos”, a lei mosaica (II Rs 18:5-6). Também vimos Deus se manifestando de viva voz – palavra “rhema”, na resposta divina à sua oração (II Rs 19:20-34, Is 37:21-35) e na ordem a um anjo para destruir o exército assírio – “Então o Senhor enviou um anjo que destruiu a todos os homens valentes, e os líderes, e os capitães no arraial do rei da Assíria; e envergonhado voltou à sua terra; e, entrando na casa de seu deus, alguns dos seus próprios filhos, o mataram ali à espada.” (II Cr 32:21, II Rs 19:35, Isaías 37:36).

O básico do manual da batalha espiritual e como vencer seus inimigos foi ensinado por Paulo nesta epístola aos efésios e também na carta de Tiago, o que deve ser observado por todos os cristãos que querem vencer Satanás - “Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao diabo, e ele fugirá de vós.” (Tiago 4:7). A palavra diz que Senaqueribe fugiu, e depois foi morto por seus próprios filhos (Isaías 37:37-38). O final da vida desse rei ímpio e blasfemo é a imagem de Satanás derrotado e condenado por afrontar o povo de Deus, quando for lançado no lago de fogo e enxofre.

Quando se diz “que maneja bem a palavra da verdade” o apóstolo compara o esforço que cada cristão precisa fazer para buscar o conhecimento da palavra e do poder de Deus com o esforço de homens guerreiros, não de homens preguiçosos e medrosos, daí que, sabendo que efetivamente todos os dons espirituais já foram disponibilizados ao povo de Deus, cabe a todos os cristãos envidarem o esforço necessário para se viver conforme aconselhado pela palavra da verdade, e assim infalivelmente sentiremos a alegria de ver a Espada do Espírito agindo em nosso favor.

Pai, Deus grande e poderoso, que ouve a oração e o clamor dos justos com pedidos de socorro aos céus, fortaleça cada espírito e alma desta geração de cristãos a se esforçar para que o Espírito Santo entre em nossas pelejas e destrua todas as fortalezas, sofismas e poderes do mal contra os quais lutamos.

* Dicionário Strong

**© Texto bíblico: ACF – SBTB