Armadura espiritual de Deus – 6ª peça ou arma – A espada do Espírito
“Tomai também o capacete da salvação,
e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus;” (Efésios 6:17).
Iluminados
pela luz da palavra de Deus, chegamos à penúltima peça da armadura
espiritual de Deus. Aqui se verifica quanto é impróprio
chamar de armas as cinco primeiras peças anteriores dessa armadura dos cristãos,
pois somente a palavra de Deus é citada como arma, que é a espada do Espírito –
Preste atenção que é o próprio Deus que compara sua palavra a uma espada ou
arma ofensiva de grande eficiência em combate. Aliás, ele diz que sua palavra
não só é uma arma poderosa como é viva e eficaz e mais penetrante que espada de
dois gumes (Hebreus 4:12), para demonstrar a capacidade dela penetrar as profundezas
da alma e do espírito, igualmente faz esse tipo de espada duplamente afiada,
dotada da ação perfurante mais letal usada nos tempos bíblicos.
No antigo testamento o uso da espada era
literal, dada sua eficiência como arma de ataque, pois dificilmente o inimigo
resistia aos ferimentos de suas estocadas na região do abdômen (Provérbios 5:4). Os
soldados a consideravam a melhor das armas no ataque aos inimigos, a ponto da
narrativa bíblica dos justos imaginar que o próprio Deus usava uma espada
contra seus inimigos - “Levanta-te,
Senhor, detém-no, derriba-o, livra a minha alma do ímpio, com a tua espada;”
(Salmos 17:13:12). Pelo
visto, até os anjos usam espada (Gênesis 3:24). Homens santos e justos usavam espadas
para matar inimigos. Davi matou Golias com uma espada (I Sm 17:50-51) e o
profeta Samuel despedaçou o rei Agague na frente do rei Saul também com uma
espada, (I Sm 15:33).
Todavia, embora de alta letalidade no
combate, o uso da espada requeria treinamento rigoroso e intenso – era
extenuante fisicamente e durava meses a preparação - para se adquirir
fortalecimento muscular, resistência, destreza e habilidade no manejo da “gladius”, a espada curta de dois gumes
(com cerca de 60 a 70cm), principal armamento dos legionários do exército
romano. As legiões romanas, formadas por cerca de 6.000 soldados, eram a elite
da arma de guerra do Império Romano, sobretudo no combate aproximado, formadas
exclusivamente por cidadãos romanos, tropa de homens altamente treinados e com
especial habilidade no uso da espada e do escudo (“scutum”). O nome original da espada de dois gumes, “gladius” ou gládio, deu origem aos
gladiadores, escravos que lutavam nas arenas romanas até a morte.
Analisando o intenso treinamento bélico e
a dedicação combativa na destruição dos inimigos pelas legiões romanas, podemos
afirmar enfaticamente que as batalhas espirituais não são para principiantes,
pois os demônios se compararam com essas legiões diante do Filho de Deus,
evidentemente não só pela quantidade de demônios envolvida como pela valentia
que ainda demonstram em não libertar suas vítimas oprimidas, contudo uma legião
demoníaca não foi páreo para resistir a Jesus – “E perguntou-lhe: Qual é o teu nome? E lhe respondeu, dizendo: Legião é
o meu nome, porque somos muitos.” (Marcos 5:9, Lucas 8:30).
Entrementes,
nesse treinamento árduo dos soldados romanos havia uma particularidade, qual
seja, não se treinava com a espada isoladamente, pois o condicionamento do seu
manejo ocorria sempre em conjunto com o escudo. O escudo no braço esquerdo do
legionário ou do gladiador defendia-lhes da espada inimiga, ao tempo que sua
espada era espetada procurando uma brecha na defesa oponente. Portanto, a
eficácia da espada estava diretamente associada ao bom desempenho concomitante no
uso do escudo.
No entanto, o novo testamento trouxe uma
linguagem nova para o uso da espada, abandonando sua terminologia de uso bélico
literal, porquanto inovou metaforicamente associando a pregação da palavra de
Deus com o manejo habilidoso da espada por um guerreiro quando perfurava
eficazmente o inimigo – “Procura
apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar,
que maneja bem a palavra da verdade.” (II Tm 2:15). Neste tempo da graça, a
vocação de todo cristão é de alguém
que maneja bem a espada do Espírito, capacidade que pressupõe conhecer a
Bíblia, ter compreensão, discernimento e perfeito entendimento de suas
mensagens, servindo ao Senhor com base nos ensinos e conselhos bíblicos.
Aqui
se torna inadiável entender que sem o escudo da fé (Efésios 6:16) – que é a
confiança inabalável no poder da palavra de Deus, mesmo ante o impossível, e fé
fundada na cruz de Cristo, nela está nossa total redenção, vindo da cruz todos
as bênçãos e benefícios dos cristãos – de nada adianta ler, levar para a
igreja, decorar ou encher a mente de textos da Bíblia, pois sua eficácia como
arma depende da fé provada e aprovada dentro do coração.
Um dia
falaram para o salmista fugir para o monte como um pássaro, pois lá não seria
alcançado pelos inimigos que já estavam próximo dele, estando tão próximos que
até já tinham colocado flecha na corda do arco, porém ele respondeu que se
fugisse não mais teria fundamento de ser um crente e viver pela fé em Deus – “No Senhor me refugio. Como dizeis, pois, à
minha alma: Foge, como pássaro, para o teu monte? Porque eis aí os ímpios,
armam o arco, dispõem a sua flecha na corda, para, às ocultas, dispararem
contra os retos de coração. Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o
justo?” (Salmos 11:1-3). Ora, vai ter situações que chegarão conselhos iguais a
esse, porém o justo permanecerá lutando, não pode fugir nem desistir da luta
porque esperará com convicção Deus agir, do contrário perdeu sua principal
defesa e ligação com Deus que é uma fé firme e inabalável.
A
conversão ao Cristianismo automaticamente alistou todos os convertidos para um
exército de combatentes que necessitam de treinamento em batalhas espirituais,
a fim de cumprirem as ordens do Senhor dos Exércitos, Cristo, as quais estão
prescritas no evangelho do reino de Deus. Sua arma principal é a espada do
Espírito, cujo uso eficiente depende do conhecimento e da obediência à palavra
de Deus, para que se tenha bom entendimento de todo conselho de Deus (At
20:27), única maneira possível de enfrentar as hostes demoníacas para libertar
as almas escravizadas pelas trevas de Satanás - “Este é o dever de que te encarrego, ó filho Timóteo, segundo as
profecias de que antecipadamente foste objeto: combate, firmado nelas, o bom
combate,” (I Tm 1:18).
A partir
deste estágio precisamos indagar o que significa o termo “espada do Espírito”?
Tem-se que, pela boa ordem das ideias, precede ao aclaramento do termo “espada do Espírito” lançar luz sobre a frase “que é a palavra de Deus”, umbilicalmente ligada à definição de “espada do Espírito”, por ser o complemento de referido versículo bíblico.
Na língua grega o substantivo “palavra” pode ser escrito basicamente de duas maneiras, como “logos” (escrita) ou “rhema” (falada). Então, a palavra de Deus registrada na Bíblia pode ser “logos” ou “rhema”. Neste versículo da carta aos efésios a revelação divina usou “rhema” para falar da palavra de Deus - “e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus” (Efésios 6:17) – ao invés de “logos”, a palavra escrita, a indicar que em batalha espiritual Deus pode falar diretamente por meio de revelações pessoais, seja ao homem, a um anjo ou para dar uma ordem ao mundo espiritual governado pelo Príncipe da potestade do ar, Satanás (Efésios 2:1).
Pouco se comenta da palavra “rhema” no meio evangélico, contudo ela é
falada para muitos cristãos e de várias maneiras: “Vai e entrega uma cesta de compra na casa que vou te mostrar.” e a
família indicada passava necessidade; “Ora
por aquele homem.” e pessoa que aceitou a oração recebe livramento de morte
pouco dias depois; “Deus mandou dizer-lhe
que, por causa do seu escárnio, antes de você se tornar um adorador, você será
quebrado como um vaso.”, vindo o escarnecedor e perseguidor de crentes a
sofrer um acidente, quebrou os ossos e paralisou todo o corpo, mas depois é
curado milagrosamente; e assim muitos outros testemunhos que a igreja ouve Deus
falando de viva voz aos santos, por meio do Espírito Santo.
Superada a distinção prévia
acima detalhada, passemos ao que foi proposto que é a análise do termo “espada do Espírito”.
Na
mesma trilha de referida distinção, a gramática grega ensina que se o verbo
estiver no infinitivo com o artigo no genitivo - verbo tomar (greg. “dechomai”), que é o ato de pegar com a
mão, segurar, levar consigo, agarrar, aprender, receber sem rejeitar (Lucas 16:4,
6-7, 22:17, Atos 7:59, II Co 7:15, 11:4, Efésios 6:17, Filipenses 4:18)*, o respectivo artigo
no genitivo “do” (“του”) – “του πνευματος – tou pneumatos” = “do Espírito”) -,
normalmente não indica possessão, mas indica um propósito. Noutras palavras, a
espada não é do Espírito Santo, o Espírito Santo de Deus não precisa de arma
para vencer Satanás nem seus demônios, pois ele é Deus, o Deus Espírito, de
modo que se deve entender que o sentido do texto não é que a espada pertença ou
está com o Espírito Santo, mas que ele tem como propósito de usar a palavra de
Deus como uma espada penetrante e mortal, não a palavra escrita, o “logos”, que é a Bíblia (Lucas 5:1, Marcos 7:13,
João 5:38:35, 17:6, Romanos 9:6, I Co 14:36, II Co 4:2, Colossenses 1:25, I Ts 2:13, Hb
4:12, 13:7, Apocalipse 19:9:6-7), mas sim a palavra falada, dita ou viva, que é a
palavra “rhema”, a voz viva de Deus
(Marcos 9:32, Lucas 2:29:5, II Co 12:4, Efésios 5:26:17, Hebreus 1:3:5, 11:3, I Pd
1:25, II Pd 3:2), para atingir eficaz e mortalmente os inimigos espirituais dos
santos.
Ou
seja, o propósito divino revelado ao apóstolo Paulo, instrui-nos que em dado
momento da nossa luta contra os principados, potestades e hostes espirituais de
demônios, o Espírito Santo entrará em ação ordenando de viva voz, no reino
espiritual, que o mal retroceda e caia por terra diante dos santos de Deus. No
entanto, para que este propósito se cumpra é necessário que o coração dos “combatentes” cristãos tenham ouvido e
guardado com fé a palavra das Escrituras sagradas dentro de si, a qual é fiel,
não desampara nem falha e virá em auxílio dos santos na forma de uma unção de
poder irresistível - “O Espírito do
Senhor Deus está sobre mim; porque o Senhor me ungiu, para pregar boas novas
aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar
liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos;” (Isaías 61:1, II Co
4:8-9).
Portanto,
restou confirmado que o Espírito de Deus tem como propósito permanente, desde o
início de cada batalha espiritual, a intenção de agir a favor dos santos,
fazendo uso da palavra de Deus contra Satanás e seus demônios, ferindo-os
igualmente o golpe de uma espada penetrante, em benefício dos que foram
edificados na verdade bíblica, aprenderam e a trazem no coração por meio da fé
em Deus e nela esperam porque não falha
- “Assim será a minha palavra, que
sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz,
e prosperará naquilo para que a enviei.” (Isaías 55:11). Isso faz o santo
entender que o momento da sua vitória vai chegar, bastando que se mantenha a
perseverança. Aliás, é isso que significa a exortação de Paulo quando diz “havendo feito tudo, ficar firmes.” (Ef
6:13) aos que se preparam para a batalha vestindo toda a armadura de Deus.
Percebe-que
que a recomendação do necessário preparo prévio de se meditar na Bíblia para
conhecer a vontade, o propósito e o poder de Deus, não é uma etapa facultativa
do treinamento da capacitação espiritual, sendo, antes, providência obrigatória
de quem vai lutar e vencer os inimigos invocando o nome de Jesus Cristo.
Depois
que Senaqueribe, rei da Assíria, tomou as cidades fortificadas de Judá, ele
enviou seus servos para cercarem e ameaçarem Jerusalém, onde estava Ezequias,
rei de Judá. Porém, muito antes da chegada do exército de Senaqueribe em
Jerusalém, o rei Ezequias previamente ordenou que se tapasse as fontes de água
de fora da cidade, restaurou os muros quebrados, construiu torres, fortificou
posições, fez armas e escudos em abundância. Ezequias preparou-se previamente
para a peleja. Durante o cerco os assírios blasfemaram o Senhor Deus e tentaram
atemorizar o povo que estava sobre o muro, esperando uma rendição dos judeus –
Vejam a tática diabólica: quando um líder é combativo espiritualmente, Satanás
vai tentar jogar seus liderados contra ele para enfraquecer sua fé e
resistência.
Todavia,
Ezequias e o profeta Isaías ouviram todas as palavras ofensivas dos assírios e
ficaram quietos. Os dois só “oraram por
causa disso e clamaram ao céu.” (II Cr 32:20). Em resposta o Senhor Deus
enviou livramento a Ezequias e aos moradores de Jerusalém por meio de um anjo “que destruiu todos os homens valentes, os
chefes e os príncipes no arraial do rei da Assíria;” (II Cr 32:21). Atentam
o que é o poder de Deus: só um anjo matou 185.00 assírios numa noite (II Cr
19:35, Isaías 37:36). Pela oração que Ezequias fez a Deus (II Rs 19:14-19, Is
37:14-20) esse rei judeu reconheceu que a Assíria já tinha destruído muitos
reinos, inclusive a Samaria escrava para o exílio, porém confessou crer que o
Senhor Deus, criador dos céus e da terra, o livraria das mãos desse inimigo
militarmente poderoso.
Interessante,
ainda, notar que Deus respondeu a oração de Ezequias rapidamente (II Rs
19:20-34, Isaías 37:21-38) e havia um motivo para isso. Ezequias era um rei
piedoso, filho de Acaz, rei idólatra, e logo que assumiu o governo de Judá
mandou reabrir as portas do templo do Senhor fechadas por seu pai; removeu os
altos, quebrou colunas e postes-ídolos de deuses pagãos; fez uma reforma
religiosa de remoção da idolatria do reino de Judá e esforçou-se no chamamento
do povo ao templo para adorar o Senhor – “Porque
se apegou ao Senhor, não deixou de segui-lo e guardou os mandamentos que o
Senhor ordenara a Moisés. Assim, foi o Senhor com ele; para onde quer que saía,
lograva bom êxito; rebelou-se contra o rei da Assíria e não o serviu.” (II
Rs 18:6-7). Ezequias venceu um exército cruel, violento e poderoso porque se
preparou para a batalha buscando Deus de todo coração, não desanimando nem
mesmo quando estava cercado pelo inimigo, sem chance de procurar qualquer ajuda
externa. Ele só podia olhar para o alto céu e de lá não tirou seus olhos até
ser atendido pela espada do Senhor.
Fica
evidente que Ezequias fez uma prévia preparação antes de derrotar Senaqueribe,
adotando medidas humanas e capacitação espiritual. Podemos ver em sua
preparação espiritual, especialmente na destruição dos altares e dos cultos
idólatras, zelo fiel na obediência da palavra de Deus – palavra “logos”, a lei mosaica (II Rs 18:5-6).
Também vimos Deus se manifestando de viva voz – palavra “rhema”, na resposta divina à sua oração (II Rs 19:20-34, Is
37:21-35) e na ordem a um anjo para destruir o exército assírio – “Então o Senhor enviou um anjo que destruiu a
todos os homens valentes, e os líderes, e os capitães no arraial do rei da
Assíria; e envergonhado voltou à sua terra; e, entrando na casa de seu deus,
alguns dos seus próprios filhos, o mataram ali à espada.” (II Cr 32:21, II
Rs 19:35, Isaías 37:36).
O
básico do manual da batalha espiritual e como vencer seus inimigos foi ensinado
por Paulo nesta epístola aos efésios e também na carta de Tiago, o que deve ser
observado por todos os cristãos que querem vencer Satanás - “Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao
diabo, e ele fugirá de vós.” (Tiago 4:7). A palavra diz que Senaqueribe fugiu,
e depois foi morto por seus próprios filhos (Isaías 37:37-38). O final da vida
desse rei ímpio e blasfemo é a imagem de Satanás derrotado e condenado por
afrontar o povo de Deus, quando for lançado no lago de fogo e enxofre.
Quando se diz “que maneja bem a palavra da verdade” o apóstolo compara o esforço
que cada cristão precisa fazer para buscar o conhecimento da palavra e do poder
de Deus com o esforço de homens guerreiros, não de homens preguiçosos e
medrosos, daí que, sabendo que efetivamente todos os dons espirituais já foram
disponibilizados ao povo de Deus, cabe a todos os cristãos envidarem o esforço
necessário para se viver conforme aconselhado pela palavra da verdade, e assim
infalivelmente sentiremos a alegria de ver a Espada do Espírito agindo em nosso
favor.
Pai, Deus grande e poderoso, que ouve a
oração e o clamor dos justos com pedidos de socorro aos céus, fortaleça cada
espírito e alma desta geração de cristãos a se esforçar para que o Espírito
Santo entre em nossas pelejas e destrua todas as fortalezas, sofismas e poderes
do mal contra os quais lutamos.
* Dicionário Strong
**© Texto bíblico: ACF – SBTB