Armadura espiritual de Deus – 2ª peça ou arma – A couraça da justiça
“Estai, pois, firmes, tendo cingidos os
vossos lombos com a verdade, e vestida a couraça da justiça;” (Ef
6:14).
Os soldados que iam para o campo de
batalha vestiam-se com a couraça (greg. “thorax”), um peitoral de couro ou de metal,
que protegia ambos os lados do corpo, na frente e às costas, cobrindo do
pescoço até o umbigo, protegendo principalmente na luta corpo a corpo, contra
as estocadas de facas, espadas e lanças. Antigamente, na luta física, quando os
órgãos internos protegidos pela couraça eram atingidos pelos inimigos, as
chances de escapar da morte eram mínimas.
Em paralelo àquela imagem do soldado em combate, o
apóstolo Paulo ensina que antes de entrar em combate espiritual o crente tem
que se vestir com a couraça da justiça (II Co 5:21 e Filipenses 3:9), que é o efeito
prático da nossa fé na obra redentora de Cristo na cruz do calvário, pois, só
pela fé em Cristo o homem poderá receber de Deus o perdão de seus pecados e
revestimento espiritual contra os ataques de principados e potestades
demoníacas. Sem a couraça da justiça, que é a obra redentora realizada por
Cristo na cruz, a qual foi suficiente e satisfez todo desejo de justiça de Deus
diante dos pecados cometidos pela humanidade, nenhum homem tem revestimento e
proteção contra ataques de inimigos espirituais.
A Bíblia diz claramente ser a couraça da justiça que
reveste cada alma por meio da fé em Cristo - “Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho
da lei e dos profetas; Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para
todos e sobre todos os que creem; porque não há diferença.” (Romanos 3:21-22).
A couraça é da justiça porque quem santificou e limpou a alma do pecador foi a
justiça de Deus, que é Cristo – “E o que
o evangelho anuncia é que Deus O enviou para fazer isso. E o meio de que Deus
se utiliza para a salvação é que agora Ele nos dá, aos que crermos em Cristo, a
justiça do próprio Senhor Jesus Cristo. Ele no-la ‘imputa’ – esse é o termo, o
que significa que Ele a põe em nossa conta. Ele credita em nossa conta a
justiça de Jesus Cristo. Primeiramente, Deus cancela os nossos débitos porque
Cristo os pagou, de modo que nessa parte o livro fica cancelado e limpo;
depois, positivamente, Ele credita toda a perfeição e toda a justiça de Cristo
a meu favor, e assim, vestido e adornado com a justiça de Jesus Cristo, fico de
pé na presença de Deus.” (Romanos – exposição sobre capítulo I – Martyn
Lloyd-Jones – pág. 371 – Ed. PES).
A
couraça da justiça é aparato especial que reveste aqueles que se alistaram para
servir o exército de Cristo. Os demais cristãos convertidos também possuem
proteção semelhante para enfrentar suas lutas e adversários, visando
principalmente preservar a salvação eterna, com espectro de cobertura menor do
que a couraça da justiça, chamada pelo apóstolo Paulo de couraça da fé - “Mas nós, que somos do dia, sejamos sóbrios, vestindo-nos da couraça da
fé e do amor, e tendo por capacete a esperança da salvação;” (I Ts 5:8).
Foi por meio do sangue do Filho de Deus derramado na cruz que todos os homens se tornaram agradáveis a Deus, afastando de si a ira divina. Isso não se confunde com a santificação, pois esta é uma condição subjetiva de todos os homens decorrente da fé e conversão a Cristo, levada a efeito pela edificação na palavra de Deus, processo que se inicia com o ato de crer e perdura até o dia em que a alma do santo for recolhida ou arrebatada. De maneira concisa, reveste-se da couraça da justiça todo homem que possui fé em Cristo, vez que, apaziguado com Deus, recebe essa proteção espiritual que o envolve como um manto ou couraça, protegendo-lhe dos ataques da mentira, maledicência, perseguição ou falsas acusações malignas e dos golpes e setas desferidas pelo poder destruidor de Satanás e de seus anjos caídos principalmente contra o coração e demais entranhas, procurando ferir sentimentos, causar angústia, amargura, confusão, tristeza, ódio e enfermidades físicas.
Não devemos esquecer que na natureza de Satanás predomina,
em sua essência maligna, o caráter de difamador e acusador, por meio das setas
da mentira, angústia, tristeza, doença ou falsidade, com intuito de dispersar
pensamentos espirituais e enfraquecer a fé guardada nos corações dos cristãos.
Quem vai enfrentá-lo precisa ter vida santa, do contrário será humilhado com
duríssimas acusações falsas de pecado, opressões causadoras de fraquezas e
perturbações no corpo físico. Vida religiosa com pecado escondido é uma couraça
que não protege ninguém contra os ataques malignos. O uso da couraça da justiça
é imprescindível para se evitar dor, sofrimento e danos à vida física, familiar
e espiritual de homens e mulheres que professaram fé em Cristo.
Na obra “O peregrino”, de John Bunyan, quando o Cristão
defronta-se com o demônio Apolião, ele reflete se devia fugir ou enfrentá-lo,
porém se lembrou [no entendimento dele] que a armadura não lhe protegia as
costas e se as voltasse ao inimigo poderia ser ferido por suas setas. Com base
nesta passagem literária muitos entendem que crentes não devem fugir do diabo,
dando-lhe as costas. Neste aspecto, não é verdade que a armadura espiritual deixa desprotegida as costas dos
santos, pois, sabemos que eram duas couraças, espécie de colete em escamas de
couro ou metal, uma protegia a região frontal e a outra as suas costas, unidas
na lateral por fivelas (I Rs 22:34). No entanto, isso é verdadeiro em relação
aos ímpios ou quem vive em pecado. Nesse tipo de vida a desgraça ou seta
inimiga entre por lugares improváveis e o mata. O rei Acabe rejeitou adorar o
Senhor Deus para ser idólatra. Numa batalha contra os sírios, embora estivesse
com armadura de combate, Acabe foi ferido gravemente e morreu - “Então, um homem entesou o arco e, atirando
ao acaso, feriu o rei de Israel por entre as juntas da sua armadura; então,
disse este ao seu cocheiro: Vira e leva-me para fora do combate, porque estou
gravemente ferido.” (I Rs 22:34 - ARA).
Foi por uma brecha na armadura que a flecha atirada a esmo matou o rei Acabe. Temos várias lições nesse episódio, contudo precisa ser destacado que alguém pode usar a melhor das armaduras (com couraça) deste mundo, mas mesmo assim o ataque inimigo vai feri-lo. A proteção plena só há na couraça da justiça. Neste ponto há que se dizer que a remição e a justificação de pecados é absoluta na vida do convertido, não ficando brechas nem vulnerabilidades espirituais dos que se convertem e servem a Cristo, a menos que volte a pecar novamente sem se arrepender, por isso que nenhum justo deve ter medo de enfrentar as forças demoníacas invocando o poder do nome de Cristo, vez que, estando em santidade, maior é aquele que nele do que todas as hostes espirituais malignas - “Filhinhos, sois de Deus, e já os tendes vencido; porque maior é o que está em vós do que o que está no mundo.” (I João 4:4).
Portanto, o sangue de Cristo perdoa todos nossos pecados,
a justificação é completa e temos proteção total contra qualquer intento do
diabo em ferir nossa integridade física, moral e espiritual com flecha ou seta
de acusações, pois o perdão divino “quebra o arco e corta a lança” (Salmos 46:9). A
justiça de Deus, que é Cristo, faz cair por terra toda acusação e ataque
espiritual, não por mérito do homem, mas pela justiça da cruz atribuída aos que
são perdoados por haverem confessados Jesus como Senhor e Salvador - “Quem intentará acusação contra os escolhidos
de Deus? É Deus quem os justifica.” (Romanos 8:33).
Todos que creem em Deus têm a couraça da justiça? Nâo. Só
os cristãos. É exclusiva dos que professam fé em Cristo, o autor e consumador
da fé que salva. Por exemplo, os ímpios definitivamente são privados de defesa
espiritual. No entanto, os judeus (não convertidos a Cristo) também são
desprotegidos da couraça da justiça porque buscaram a lei da justiça com base
nas obras da velha aliança e não pela fé como estabelecido no evangelho (Rm
9:31-32). Aprofundando mais a análise do erro da nação de Israel quanto à sua
salvação, o apóstolo Paulo diz que os judeus ao buscarem a justiça de Deus
pelas obras da lei mosaica demonstram ter zelo pela palavra da lei, porém sem o
entendimento necessário de que a justiça divina opera por meio da fé em Cristo
– “Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus,
e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de
Deus. Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê.”
(Romanos 10:3-4).
Daniel não tinha brechas em sua armadura, pois era um
homem fiel a Deus e com espírito excelente realizava seu trabalho,
destacando-se entre todos os demais chefes do reino persa. Por isso seus
adversários, por inveja, conspiraram contra ele com base na sua fé, o qual não
a negou nem mesmo diante de um decreto real, de modo que por causa da adoração
a Deus foi jogado na cova dos leões em manifesta perseguição religiosa. O final
todos sabemos e como os conspiradores foram devorados pelos leões (Dn 6), mas
ficou o testemunho de como devemos ter uma vida santa, sem fraquezas nem
brechas espirituais. Isso é vestir-se com uma couraça ou proteção perfeita.
O jovem Davi recusou a armadura do rei Saul quando
enfrentou o gigante Golias (I Sm 17:38-39), ensinando-nos que cada crente
precisa ter sua própria armadura espiritual (e sua couraça), de nada valendo
entrar em batalha confiando na proteção de armadura ou couraça emprestada.
Avulta-se que a salvação é individual, não importando para a salvação do filho
quão protegido seja o pai, porquanto aquele terá que esforçar-se por sua
própria salvação.
O
testemunho de vida cristã dado pelos irmãos, e até por adversários como no caso
de Daniel, serve de parâmetro e teste para se saber se está ou não preparado
para entrar em batalhas espirituais, não em batalhas pessoais porque isso é
natural ou ato de autodefesa, mas em especial a favor de outras pessoas que
estão sendo atacadas por opressões ou possessões demoníacas. Isso é visto na
convivência e práticas espirituais de cada líder ou irmão no corpo de Cristo.
Nem toda liderança é capacitada espiritualmente a guerrear, justamente por
falta de preparo ou até mesmo por fraqueza espiritual, ainda que momentânea.
A Bíblia demonstra que o homem santo além de ser temido no mundo espiritual também é ouvido e respeitado de boa mente entre todos os homens: “Porque Herodes temia a João, sabendo que era homem justo e santo; e guardava-o com segurança, e fazia muitas coisas, atendendo-o, e de boa mente o ouvia.” (Marcos 6:20, Jó 29:7-12). A santidade do homem e a couraça da justiça concedida por Deus constituem uma fortaleza na vida dos santos. Não basta ter sido justificado de pecados, faz-se imperioso que a justiça da cruz permaneça na vida do convertido, por meio de vida santa.
Há que se atentar que Satanás não se intimida com
religiosidade, intelectualismo religioso, títulos eclesiásticos nem com gritos,
mas apenas recua diante de quem possui santidade para usar a autoridade do nome
de Jesus. Enfrentar o diabo sem santidade é ter o mesmo destino humilhante dos
filhos de Ceva, judeu principal dos sacerdotes em Éfeso (Atos 19:13-16).
Irmãos
e irmãs, louvado seja o nome do nosso Deus e Pai que nos dá a certeza, em sua
palavra, que estamos protegidos de todo ataque espiritual pela couraça da
justiça que recebemos pela fé em Cristo – “Portanto,
agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam
segundo a carne, mas segundo o Espírito.” (Romanos 8:1).