Armadura espiritual de Deus – 7ª peça ou arma – A oração no Espírito
“Orando em todo o tempo
com toda a oração e súplica no Espírito, e vigiando nisto com
toda a perseverança e súplica por todos os santos” (Efésios 6:18).
A tradução feita pela versão Almeida atualizada (ARA) é mais correta porque seguiu a ordem direta do original grego – “com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos”. A palavra oração (greg. “proseuche”) refere-se às palavras que são dirigidas a Deus como também ao lugar separado para se fazer oração, tendo como elemento principal a devoção ou sujeição da vontade própria manifestada em práticas espirituais que agradam e aproximam o homem de Deus.
Interessante observar
que o original grego menciona dois tipos de orações – “proseuches kai deesis” -, aportuguesadas como oração e súplica
(greg. “deesis”), sendo esta última
caracterizada como um petitório em busca de benefício particular, não se
estendendo à demonstração de maior entrega com base num sentimento de consagração
e de amor pessoal como se dá no primeiro tipo de oração. É a oração pragmática:
pedir a Deus aquilo que é necessário ou urgente, sem delongas nem cerimônias.
Fomos ensinados pelas
Escrituras da antiga aliança que devemos orar a Deus com súplica pessoal
pedindo auxílio, socorro e livramentos divinos contra enfermidades, inimigos,
falsas acusações, queda ou castigo de ímpios, principalmente pelas
orações-modelos do livro de Salmos. A súplica pessoal está sempre presente na
maioria dos salmos, especialmente naqueles salmos e orações da autoria de Davi
(Sl 12, 17, 25, 26, 28, 35, 40, 44, 52, 60, 64, 70, 71, 88, 109, 142, 143).
Mas, agora o novo
testamento acresce às orações com súplicas pessoais a necessidade de se orar
também pelos demais irmãos da fé em Cristo quando se estiver suplicando por
bênçãos divinas em batalhas espirituais – incidência dos princípios da
generosidade e do compartilhamento das bênçãos espirituais -, fazendo um
amálgama espiritual entre interesses pessoais e interesses comunitários ou
coletivos do corpo de Cristo. A oração deve ser feita não somente com uma
intenção individualista, mas também com uma intenção solidária em benefícios de
outros santos - “Alegrai-vos com os que
se alegram; e chorai com os que choram;” (Romanos 12:15).
O Pai é “nosso”, não somente meu. Este deve ser o
estado da alma e do espírito humano que almeja ver o Espírito Santo mover-se a
seu favor, ao tempo que se constata a coexistência ou união entre o amor a Deus
e o amor ao próximo na vida de quem ora com o espírito quebrantado, do
contrário as orações não perdem o caráter egoísta que alimenta o impulso
arrogante e a soberba de coração.
Agora somos instruídos
que o interesse espiritual dos demais santos ganha importância concreta quando
alguém está “orando em todo o tempo”
no enfrentamento de batalhas espirituais, pois, diante do texto bíblico em
comento, orar pelos irmãos é uma das condições a ser cumprida para se obter a
vitória pessoal das mãos de Deus. As orações particulares, no secreto com Deus
(Mateus 6:6), permanecem válidas, contudo são insuficientes no enfrentamento de forças
demoníacas como principados e potestades. Isso não se confunde a necessidade de
cobertura espiritual por meio de orações de outros santos em tempo de lutas
intensas - “acontecia que, quando Moisés
levantava a sua mão, Israel prevalecia; mas quando ele abaixava a sua mão,
Amaleque prevalecia.” (Êxodo 17:11), conquanto a generosidade nesta oração
especial se presta a demonstrar sinceridade de coração e prática de amor ao
próximo.
As batalhas espirituais não
podem ser travadas com orações egoístas ou meramente individuais, pois Deus
resiste aos soberbos e se mantém longe dos arrogantes (Salmos 138:6). Por isso que
essas orações devem buscar o bem-estar de “todos
os santos”, levando à presença de Deus causas e pedidos que favorecem a
outros irmãos e ao corpo de Cristo, tampouco deverão basear-se em rancor, ódio,
inveja ou atender só ao deleite de prazeres carnais.
Por exemplo, se o propósito da
luta espiritual é a cura de um câncer na família, o pedido nas orações
abrangerá a cura de outras enfermidades enfrentadas pelos irmãos ou santos da
igreja. Da mesma forma, se o que se busca é a libertação de um filho do vício
da droga, também deverá ser pedida a libertação de outros irmãos que sofrem com
o mesmo vício ou com outras tribulações. Orar a favor de outros irmãos é
incentivar a unidade da fé de todos os santos no corpo de Cristo, de modo que o
mandamento do amor ao próximo ocupe o lugar do egoísmo e das contendas que agem
enfraquecendo a santidade e o poder da fé no meio da igreja. Evidencia-se que
orações “cruzadas” ou de uns pelos outros fortalecem a fé e as experiências
espirituais mútuas na igreja do Senhor (Tiago 5:16).
Compartilhar o que se recebe dos céus é a principal regra rege as bênçãos divinas recebidas – uma bênção de Deus, seja material ou espiritual, jamais se restringirá à pessoa do abençoado, porquanto sempre deverá ser compartilhada para a glória de Deus - “Jesus respondeu: Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus.” (João 9:3). A palavra diz claramente que aquele que ajuda será ajudado, pois a generosidade tem um alto valor para Deus – “A alma generosa prosperará e aquele que atende também será atendido.” (Provérbios 11:25). O apóstolo Paulo afirmou ter ouvido do próprio Senhor Jesus que “mais bem-aventurada coisa é dar do que receber.” (Atos 20:35), numa evidente exaltação da generosidade e do amor ao próximo que deve prevalecer entre os irmãos.
A generosidade cristã é um
forte instrumento do amor, da paz e da bondade de Deus na convivência entre
irmãos. O caráter generoso tem origem na benignidade, fruto do Espírito dado
aos homens santos (Gálatas 5:22). A benignidade espiritual suplanta os efeitos
fugazes dos prazeres terrenos e da velha natureza carnal, os quais são
temporários como todas as coisas deste mundo, pelos quais os homens ímpios
perdem muito tempo de suas vidas sem entender que são tudo vaidade,
principalmente os ricos. O bispo Tiago alerta a igreja para não se iludir com
os deleites temporários nem deixar que o desejo por eles entrem no coração – “pedis e não recebeis, porque pedis mal, para
esbanjardes em vossos prazeres.” (Tiago 4:3:5 - ARA). Quem
faz uma oração egoísta está pedindo mal porque Deus não o atenderá por estar em
desconformidade com a vontade divina – “E esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa,
segundo a sua vontade, ele nos ouve.” (I João 5:14).
Logo, a combinação de oração e
súplica visam impedir orações egoístas.
Por sua vez o termo “orando em todo tempo” (“proseuchomenoi en panti kairo”) quer
dizer que durante o tempo (greg. “kairo”)
da batalha espiritual a oração deve ser permanente, em todo momento. O apóstolo
Paulo usou um termo sinônimo da mesma prontidão espiritual em oração dizendo “orai sem cessar” (greg. “adialeiptos proseuchesthe”) quando
falava da oração incessante aos tessalonicenses (I Ts 5:17, Romanos 1:9:2, I Ts 1:3, 2:13, e II
Tm 1:3).*
Portanto, orar “com toda oração e súplica” em “todo tempo” no Espírito consiste em
manter-se vigilante na oração durante todo o período de batalha espiritual, sem
jamais esmorecer ou desistir, como a sentinela vigia a cidade do alto da torre
de dia e de noite. Claro está que a luta
espiritual contra as hostes espirituais do mal deve ser feita por aqueles que
têm o Espírito Santo em sua vida,
prova cabal que estão preparados e capacitados espiritualmente, igualmente os
discípulos foram revestidos do poder do Espírito Santo no dia de Pentecostes
antes de saírem enfrentarem o poder das trevas pregando o reino de Deus e
fazendo maravilhas (Lucas 24:48-49 e Atos 1:8 e 2:1-4).
Como dito alhures, as
orações devem alternar pedidos gerais (“proseuche”)
ou benefício para todos os santos e também orações particulares (“deesis”), em benefício próprio,
especialmente o pedido de fortalecimento da fé, da confiança e da resistência
espiritual pelo poder do Espírito Santo. Isso é o que significa “orando em todo tempo no Espírito”.
A perseverança (greg. “proskarteresis”) serve de medida do
esforço e vontade de vencer o mal com a ajuda do Espírito. Quanto maior for o
tempo consagrado e os momentos diários de orações mais o Espírito Santo opera
no propósito declarado diante do Senhor. Foi isso que Jesus ensinou na parábola
do juiz iníquo e da viúva persistente (Lucas 18:1-8). O novo testamento associa a
perseverança na oração ao resultado direto de dois objetivos espirituais
grandiosos. O primeiro diz e repete em vários textos que a salvação eterna dos
santos depende da perseverança - “Mas
aquele que perseverar até ao fim, esse será salvo.” (Mateus 24:13, Marcos 13:13, Rm
2:7, I Tm 4:16), e o segundo objetivo é no resultado favorável das batalhas
espirituais, como vemos nesta carta aos efésios - “vigiando nisto com toda a perseverança” (Efésios 6:18, Romanos 12:12, Colossenses 4:2,
I Tm 5:5). A palavra grega sinônima para perseverança/paciência usada por Paulo
no texto da carta aos efésios é “hupomeno”,
que expressa o ato de permanecer, não se retirar, não fugir, suportar, aguentar
bravamente e calmamente, manter-se firme na fé em Cristo.*
Entrementes, também se mostra
pertinente dizer que no grego bíblico o
verbo vigiar (greg. “agrupneo”)
significa estar atento, de sobreaviso, em alerta e vigilante - “vigiando nisto” (Efésios 6:18, Marcos 13:33), a
invocar estado permanente de vigilância espiritual por meio da oração. Logo, no novo testamento
manter-se vigilante ou vigiar é permanecer em oração.*
A exortação do apóstolo
para que permaneçamos em oração tem forte apelo e eficácia espiritual. Nunca é
demais se lembrar que nossa luta não é contra a carne nem contra o sangue, mas
pela entrada no reino espiritual em nome de Jesus Cristo, pedindo o agir do
Espírito Santo a nosso favor. Não se iluda:
o diabo quer a todo custo que paremos de orar, pois a força da fé precisa da oração. Em
sentido contrário, os poderes das trevas fazem de tudo para afastar o homem da
vida piedosa e dedicada às constantes orações.
E não é só isso. O apóstolo Paulo ensinou que fazer orações é
entrar numa batalha ou luta (greg. “agon”)
espiritual contra os principados e potestades (Colossenses 2:1 e Efésios 6:12), inimigos
invisíveis aos olhos carnais, mas que a todo momento agem para causar aflições
e embaraços na vida dos homens. Ele disse isto quando a igreja de Colossos
estava sendo atacada pelos ensinos gnósticos que visavam enfraquecer a
obediência ao evangelho de Cristo. Como só o poder de Deus pode anular as
atividades malignas de Satanás, essas hostes do mal fazem de tudo para impedir
nossa perseverança na comunhão com o poder do evangelho de Cristo e de Deus.
Aqui está uma
grande verdade espiritual: o nosso inimigo quer que paramos de orar a todo
custo. Deixar de orar é tornar-se fraco e interromper a comunhão e a intimidade
com Deus. Quanto menos se ora, mais difícil torna-se a orar; quanto mais se ora,
mais facilidade se tem em fazer oração. É pela oração que os homens lutam
contra a escuridão. Neste aspecto, quando a palavra diz “vigiai” ou “sede vigilantes” isso é um chamado a perseverar na oração
(I Co 16:13). A unção do Espírito Santo reveste
aqueles que sempre estão em prontidão espiritual ou que se mantêm vigilantes em
oração – “portanto sede sóbrios e vigiai
em oração.” (I Pd 4:7, Tiago 5:8).
Fica entendido que
orar em todo tempo não se resume num mero encorajamento, para que o homem e a
mulher de Deus se esforcem em orar. Definitivamente não é só isso. Há uma
exortação para que vivamos um estilo de vida onde a oração faça parte de tudo
que fizermos numa rotina diária que se repete por meses e anos. Inclui o tempo
separado para ler a palavra de Deus, orar nas refeições, nas saídas e entradas,
mas principalmente em se manter firme pelo poder do Espírito Santo diante das
tentações, seduções e do poder dos principados e potestades demoníacos, os
quais são inimigos poderosos, violentos e persistentes no objetivo de derrotar
os filhos de Deus.
Precisamos ter em
mente que as batalhas espirituais podem durar meses ou até anos, tudo dependerá
de quão ajustados estão em nossas vidas os equipamentos da armadura espiritual
de Deus – a verdade, a couraça da justiça, o evangelho da paz, o escudo da fé,
o capacete da salvação e a oração no Espírito -, chegando ao ponto que, fechadas
todas as brechas, o testemunho da própria vida do crente torna-se uma arma
poderosa de Deus contra o poder do mal. Oh glória, assim será em nossas vidas.
Amém.
Deus grandioso,
Deus majestoso, temos entendimento de nossa total dependência do Senhor, por isso
não retire de nós o fervor espiritual que sustenta nossa vida de oração em sua
presença. Queremos mais de ti, fique conosco Pai, te amamos.
* Dicionário Strong