A mulher sunamita
“Sucedeu
também um dia que, indo Eliseu a Suném, havia ali uma mulher importante,
a qual o reteve para comer pão; e sucedeu que todas as vezes que passava
por ali entrava para comer pão. E ela disse a seu marido: Eis que tenho
observado que este que sempre passa por nós é um santo homem de Deus.
Façamos-lhe, pois, um pequeno quarto junto ao muro, e ali lhe ponhamos
uma cama, uma mesa, uma cadeira e um candeeiro; e há de ser que, vindo ele a
nós, para ali se recolherá.” (II Rs 4:8-10).
Estamos
diante de uma mulher de muita fé e que tinha grande alegria em pertencer ao
povo de Deus. Foi ela, não seu marido, que vendo o profeta Eliseu (hebr. “Deus é salvação”) passar próximo de casa
na cidade de Suném (hebr. “Dois lugares
de repouso”) o convidou a entrar e comer pão na sua casa – sentar-se à mesa
com alguém para comer era um ato de confiança e de intimidade entre os judeus.
A palavra diz que ela “constrangeu”
Eliseu entrar em sua casa - “Certo dia,
passou Eliseu por Suném, onde se achava uma mulher rica, a qual o constrangeu a
comer pão.” (II Rs 4:8 - ARA). A mesma sede de ouvir a palavra de Deus teve
Lídia quando igualmente “constrangeu”
Paulo a entrar em sua casa depois que foi batizada pelo apóstolo (Atos 16:15).
Que
mulheres nobres! Mulheres sábias porque souberam reconhecer um homem santo, um
pregador fiel da palavra e obreiro do Senhor. Hoje está difícil ver alguém
assim, os olhos das pessoas estão no mundo, na estética corporal, nos corpos
torneados pela malhação física, em carros e roupas chamativos. A contemplação
do que é santo e agradável perdeu importância mesmo entre os religiosos, pois
muitos dos que vão à igreja permanecem indiferentes ao novo nascimento, não
ouvem atentamente nem possui temor santo à palavra de Deus e assim não se
transformam espiritualmente – “aquele que
não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.” (João 3:3) -, e até
continuam com os mesmos hábitos da vida mundana, seja por palavra ou conduta.
Por isso que infelizmente temos visto muitos bodes no meio das ovelhas.
Quem
quer mais comunhão e intimidade com Deus aproxima-se cada vez mais das obras
que ele faz entre os homens. A sunamita não tinha filhos, porém não era uma
mulher de alma amargurada. Outrossim, não era estéril. O original hebraico diz
que ela não tinha filhos – hebr. “en-ben”
-, deixando de usar a palavra hebraica quando se referiu à esterilidade de Sara
e de Rebeca (hebr. “aqar”). Logo, era
uma mulher fértil, mas o esposo não a engravidava, contudo não se lançou a
procurar aventura amorosa que lhe desse um filho, mas respeitava o marido e
ouvia a palavra dele antes de fazer algo (II Rs 4:14, 22-23). A fidelidade e
boa convivência no casamento é sinal de respeito à aliança espiritual que rege
o matrimônio. Isso agrada a Deus. Quem adultera ou viola a convivência conjugal
viola, primeiramente, sua aliança com Deus, depois com o cônjuge. Todo casamento
é feito na presença de Deus e Ele se torna testemunha de cada união matrimonial
- “E dizeis: Por quê? Porque o Senhor foi
testemunha entre ti e a mulher da tua mocidade, com a qual tu foste desleal,
sendo ela a tua companheira, e a mulher da tua aliança.” (Malaquias 2:14).
Assim,
a pessoa que busca santificar-se sempre quer fazer algo para agradar a Deus e
isso aconteceu com essa mulher – “Façamos-lhe,
pois, em cima, um pequeno quarto, obra de pedreiro” (II Rs 4:10 - ARA).
Quem quer intimidade com as coisas espirituais separa um lugar da casa para ser
santo ao Senhor, onde ele possa ser buscado com oração e meditação na sua
palavra. Foi buscando mais Deus que a sunamita acolheu o profeta em casa,
dando-lhe um quarto de descanso quando ele estivesse peregrinando para semear a
boa semente.
Também
vemos que a gratidão surge naturalmente no coração de um homem justo sempre que
alguém lhe faz bem, por isso Eliseu indagou à mulher sunamita acerca de sua
necessidade – “Porque ele tinha falado a
Geazi: Dize-lhe: Eis que tu nos tens tratado com todo o desvelo; que se há de
fazer por ti? Haverá alguma coisa de que se fale por ti ao rei, ou ao capitão
do exército?” (II Rs 4:13). A resposta foi maravilhosa: “Não preciso de mais nada material, habito no
meio do meu povo”. Para ela só estar no meio do povo de Deus era uma
alegria impagável, porquanto o Senhor sempre cuida dos seus filhos e não
desampara. Mas, para algumas pessoas é difícil entender que há irmãos e irmãs
que vão à igreja simplesmente para louvar e adorar o Senhor, não pedem nada
material, somente bênçãos espirituais. A sunamita era rica e foi generosa com o
profeta por causa do santo temor a Deus, não porque estava negociando com Deus.
Quanto a isso o apóstolo Paulo diz à Igreja que “é grande ganho a piedade com contentamento.” (I Tm 6:6).
O profeta Isaías diz que quando se anda na obediência da palavra o homem justo tem crédito com Deus, ele ora e o Senhor apresenta-se dizendo “eis me aqui” (Isaías 58:9, Salmos 91:14-15). Isso explica porque mesmo a sunamita dizendo que não precisava de nada porque habitava no meio do seu povo Eliseu chama-a novamente dizendo que no ano seguinte teria um filho (II Rs 4:17). Jesus ensinou algo importantíssimo sobre essa passagem – “Quem vos recebe, a mim me recebe; e quem me recebe a mim, recebe aquele que me enviou. Quem recebe um profeta em qualidade de profeta, receberá galardão de profeta; e quem recebe um justo na qualidade de justo, receberá galardão de justo.” (Mateus 10:40-41). Isso significa que se alguém acolhe um profeta (ou pastor, missionário, mestre ou qualquer homem santo) em casa reconhecendo sua autoridade espiritual, ou colabora com o sustento da obra ministerial ou lhe dá hospitalidade receberá como recompensa algo associado ao trabalho do ministério do homem santo que acolheu com respeito.
A
sunamita fez isso e foi recompensada abundantemente. Ela acolheu um profeta
como homem de Deus, não como se recebe qualquer pessoa do mundo. O que um
profeta faz? Fala com Deus, transmite as palavras de Deus aos homens, faz
curas, ressuscita mortos (II Rs 17:22) e prediz o futuro com profecias (I Rs
17:1, Atos 11:27-28). Todas essas bênçãos a sunamita experimentou em sua vida
depois que recebeu um profeta em sua casa. Ela teve 1) o milagre da gestação,
2) o milagre da ressurreição do filho que havia morrido e 3) o aviso prévio do
perigo da fome que estava chegando à terra de Israel (II Rs 8:1). Por exemplo,
quem recebe um pastor como justo receberá os benefícios dos dons que revestem o
ministério pastoral – dons de cura, de pregação da palavra e de intercessão com
orações aos céus. Deus não se esquece das obras dos que ajudam ou servem a seus
escolhidos por temor a Ele (Hebreus 6:10). Cada ministério ou serviço tem seus
próprios dons espirituais. Receber seus obreiros com respeito é tornar-se digno
de usufruir dos benefícios dos dons espirituais que neles operam por meio do
Espírito Santo.
A mulher sunamita teve o filho prometido pelo homem de Deus, mas certo dia estando o menino no campo com o pai sentiu dor de cabeça e foi trazido à sua mãe, a qual o aconchegou no colo, porém a criança morreu ao meio-dia. Nesse momento duas atitudes dela mostram quão grande era sua fé e segurança espiritual. Primeiro, ela não chorou nem se desesperou com a morte do seu único filho, mas o colocou no quarto onde o profeta se hospedava. E, em segundo lugar, não disse ao marido que o menino tinha morrido, certamente confiando que o profeta de Deus podia fazer algo pelo menino e reverter a morte. Pelo jeito, a coluna espiritual daquela casa era sustentada pela fé da mulher sunamita, então ela nem perdeu tempo em dar explicações ao marido acerca do poder da fé que a movia naquele momento de aflição e tribulação. Pelo que se vê, as coisas espirituais eram tratadas entre ela e Deus, seu marido não tinha discernimento espiritual (I Co 2:14-15). Apenas chamou o marido, disse que iria na casa do profeta e despediu-se dele: “Tudo vai bem” (hebr. “shalom”) ou em tradução livre “ficará tudo bem”.
Como
tudo ia bem se o filho dela estava morto? O coração dela devia estar descansado
em Deus porque não havia tristeza no rosto que a denunciasse ao marido – “O coração alegre aformoseia o rosto, mas pela
dor do coração o espírito se abate.” (Provérbios 15:13). Grande era sua disposição
naquele instante, pois a distância de Suném ao monte Carmelo (hebr. “Campo fértil”), onde morava Eliseu, é
cerca de 11km (onze quilômetros), aproximadamente duas horas de caminhada. A
paz e a esperança dela eram sustentadas pela fé que tinha no poder de Deus. O nosso
grau de confiança em Deus prova o tamanho da nossa fé. Nem toda tribulação ou
adversidade é sem propósito, pois existem sofrimentos que vêm como provações para
que se aperfeiçoe a fé dos crentes (Tiago 1:2-3).
Essa mulher abençoada estava sendo guiada pela certeza de que Deus desfaz o impossível, pois
alguns anos atrás Ele havia feito algo impossível tornar-se real na sua vida
quando, depois de muitas frustrações, nem ela mais acreditava que podia ter um
filho – “E disse ela: Não, meu senhor,
homem de Deus, não mintas à tua serva.” (II Rs 4:16). Mas, agora o filho da
promessa estava morto. Na mente dela a solução era a seguinte: Buscar o Deus
que destrói o impossível - “Porque para
Deus nada é impossível.” (Lucas 1:37). Então, como o impossível estava
novamente diante dela, ela precisava da presença do profeta para trazer seu filho
à vida. Geazi (hebr. “Vale da visão”),
servo do profeta, veio correndo ao seu encontro quando ela chegou na casa de
Eliseu, mas ao ser indagada - “Vai bem
contigo? Vai bem com teu marido? Vai bem com teu filho?” – respondeu a
pergunta dele com um sucinto “shalom”
– “Vai bem” (II Rs 4:26).
Têm
situações que é inútil buscar auxílio em homens, temos que ir diretamente a
Deus – o profeta representava Deus, o Senhor falava por ele. Por isso ela não
parou para conversar com Geazi, servo de Eliseu, indo direto a quem tinha
responsabilidade espiritual diante de Deus. Buscar ajuda com pessoas erradas
pode aumentar o sofrimento, em vez de trazer consolação e refrigério, daí que o
certo é procurar homens e mulheres santos preparados para consolar conforme a
palavra de Deus (II Co 1:3-4). Aqui se vê o valor de conhecer homens e mulheres
de orações que andam na presença de Deus, em vigilância espiritual, de modo
que, a qualquer momento, estão aptos a entrarem na peleja como intercessores.
Não se esqueça que Cristo é o nosso refúgio e fortaleza nas horas de tribulação
– “Vinde a mim, todos os que estais
cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.” (Mateus 11:28, Salmos 46:1).
O ato
da sunamita de agarrar os pés de Eliseu ensina como devemos nos derramar aos
pés de Cristo clamando por sua ajuda. Quando vier a aflição ajoelhe-se,
prostre-se e se derrama diante de Deus porque sempre ouve nossas orações (Sl
65:2). Precisamos fazer isso aos pés da cruz. Na cruz sabemos que não temos
mérito espiritual algum porque tudo recebemos pela graça divina, por meio da fé
que nos levou até aos pés de Cristo. Todo aquele que se ajoelha aos pés da cruz
de Cristo transforma-se num gigante - “Sairei
na força do Senhor Deus, farei menção da tua justiça, e só dela.” (Sl
71:16). O profeta Eliseu vendo que o caso do menino era grave ordenou que Geazi
fosse com seu cajado até Suném e o colocasse no rosto do menino, porém a
sunamita não aceitou a ajuda do servo, queria que o próprio profeta fosse com
ela, e assim ele a acompanhou (II Rs 4:30). A providência de Geazi com o cajado
do profeta não despertou o menino e assim Eliseu viu que o menino realmente
estava morto. O corpo do menino estava no quarto onde o profeta tinha feito
muitas orações ao Senhor, por isso entrou, fechou a porta e orou (II Rs 4:33).
A partir
daqui o que Eliseu fez foi dirigido pelo Espírito de Deus, não tem explicação
nem entendimento lógico. Todavia, prestemos atenção: O que Eliseu fez para
vivificar o menino morto é o método bíblico para o homem justo que, um dia,
quiser vivificar alguém que morreu. Por quê? Porque foi dessa mesma maneira que
o profeta Elias ressuscitou o filho da viúva da Sarepta (I Rs 17:17-24). No
novo testamento o apóstolo Paulo fez algo semelhante quando ressuscitou o jovem
Êutico (greg. “afortunado”) na cidade
de Trôade, inclinando-se e abraçando o corpo desfalecido para lhe transmitir a
energia vital da alma vivente (Atos 20:7-12). Só Jesus não fez isso quando
ressuscitou Lázaro, a filha de Jairo e o filho da viúva de Naim, contudo ele
era Deus, nele estava a vida (João 1:4) e bastou falar-lhes que o espírito de
vida retornou aos corpos mortos.
Para ressuscitar o menino, Eliseu deitou duas vezes sobre o corpo do menino colocando boca sobre boca, olhos sobre olhos e mãos sobre mãos “e a carne do menino aqueceu” (II Rs 4:34). O espírito de vida que pulsava intensamente em Eliseu vivificou a carne do menino, devolvendo-lhe o fôlego de vida tal como havia recebido no dia que foi gerado no ventre de sua mãe – “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.” (Gênesis 2:7). No original hebraico o verbo soprar (hebr. “naphach”) foi usado para jogar dentro do homem o fôlego (hebr. “neshamah”) de vida (hebr. “hay”), “fôlego de vida” que é soprado por Deus em cada um de nós quando fomos criados por Ele, que é a força vital que faz o barro tornar-se alma vivente (hebr. “nephes” + “hay”). O fôlego de vida é sinônimo de hálito vital, sopro, respiração e espírito humano. A morte física destrói o barro (corpo), porém a alma é indestrutível, permanece viva, tendo como destino final a salvação ou o sofrimento eterno, conforme decidimos aceitar ou rejeitar o chamado de Deus em Cristo Jesus. O teólogo britânico C. S. Lewis disse algo fantástico sobre a imortalidade da alma humana: “Você não tem uma alma. Você é uma alma. Você tem um corpo.". Ou seja, somos uma alma vivente habitando temporariamente num corpo, a qual é imortal por natureza - “Eu sei que tudo quanto Deus faz durará eternamente;” (Ec 3:14a) -, por isso estaremos sempre vivos, na presença do Pai se escolhermos a salvação ou condenados e sofrendo eternamente longe dele se o rejeitarmos.
Só
quem se coloca na presença de Deus pode ser usado como instrumento da sua
justiça nesta terra, como Deus usou o profeta Eliseu para vivificar o corpo do
menino que estava morto. Glória a Deus! E, assim, finalmente o menino espirrou
sete vezes e abriu os olhos, sendo entregue a sua mãe, a qual novamente
prostrou-se aos pés de Eliseu, só que desta vez para glorificar o poder e a
misericórdia de Deus com a vida do seu filho.
Qual
área da sua vida está morrendo? É a familiar, a conjugal, a financeira, a
sentimental, a profissional, a espiritual ou outra? Confia em Jesus Cristo. Pelo
poder da fé o vício não vai ficar na sua casa, pois há promessa de libertação
para aquele que o recebe como Senhor; a crise conjugal não vai destruir sua
família porque há promessa de segurança e paz, pois o casamento posto na
presença de Deus é forte como um cordão de três dobras (Eclesiastes 4:12); a doença não
vai matar ninguém na sua casa porque temos um Deus que cura o seu povo, Jeová
Rafá, e Cristo levou sobre si nossas enfermidades e pelas suas pisaduras fomos
sarados. (Êxodo 15:23, Isaías 53:4-5).
Estamos diante de uma mulher que foi sábia, principalmente para edificar sua casa (Provérbios 14:1). Temia a Deus, era santa, obediente e
descansava nas promessas do Senhor. É um testemunho de fé onde temos muitos
ensinamentos a aprender, muito mais do que está sendo dito nesta exposição,
pois os princípios que norteavam sua vida são colunas de toda vida abençoada.
Entanto, saiba que a mesma promessa de bênção e prosperidade espirituais que
protegeu a mulher sunamita baseada na fé em Deus também está sobre sua vida.
Por isso, creia que aquilo está morrendo diante de seus olhos e você se sente
impotente para impedir um desfecho trágico ou aquilo que já está morto e
consumado pode ser vivificado pelo poder de Deus, basta que se esforce em
imitar a fé, a bondade e o amor a Deus demonstrado por esta mulher da qual Ele
se agradou. Nós aprendemos a amar Deus em Cristo. Se Deus se agradou dela
também vai se agradar de nós se guardarmos seus ensinamentos no coração, posto
que o Senhor não faz acepção de pessoas. Amém.
Senhor Deus, favoreça seu povo a conhecer homens e mulheres de fé, comprometidos com sua palavra e usados pelo Espírito Santo nesta terra, para que sejamos contemplados com milagres e prodígios que desfaçam o impossível em nossas vidas. Glória a Deus, em ti esperamos.
*© Texto bíblico: ACF – SBTB