Estudo Bíblico

Divórcio: Jesus aumentou suas possibilidades (e também o rigor)

Divórcio: Jesus aumentou suas possibilidades (e também o rigor)

  • Éder de Souza
  • Tempo de Leitura 13 Minutos

Disse-lhes ele: Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim. Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério.” (Mateus 19:8-9).

Faz-se necessário esclarecer que a Bíblia tem uma doutrina para o divórcio, a qual se chega examinando textos da velha aliança, dos evangelhos e da doutrina apostólica, pois, em verdade, o assunto não é complexo, contudo requer esse ajuntado de textos bíblicos para o bom entendimento.

O casamento foi criado pelo próprio Deus (Gênesis 2:22-24), o que faz dele uma obra divina para toda Humanidade, estabelecendo-o como uma união entre o homem e a mulher marcada pelo caráter da indissolubilidade. A carta de repúdio ou divórcio – em hebraico “seper keritut” (Deuteronômio 24:1) foi uma lei civil instituída por Moisés (em 1.407 a. C.) no regramento do novo casamento contraído pelos maridos israelitas, documento que legalmente expulsava de casa a mulher repudiada, liberando-a também para se casar novamente.

Na época de Jesus, havia duas correntes judaicas sobre o divórcio entre o marido e sua mulher, tendo como base o termo “coisas indecentes” (hebr. “erwat dabar”)  prescrito na lei mosaica (Deuteronômio 24:1). “Coisas indecentes” era um termo impreciso ou indefinido, permitindo várias interpretações conforme o caso concreto. Ou seja, caso o marido, de forma unilateral, apontasse em sua esposa uma indecência, inconveniência, desonra, ato repreensível ou algo que subjetivamente considerou ofensivo, com base em Deuteronômio 24:1 ele poderia dar-lhe uma carta de divórcio, deixando-a livre para se casar novamente, pois com esse documento estava rompido o vínculo conjugal e a expulsava de casa. Tem-se que a resolução pelo repúdio marital era um ato interno da família, principalmente porque a partir dele a esposa repudiada era expulsa (hebr. “garash”) ou colocada fora de casa (Levítico 21:7:13, Números 30:9, Ez 44:22). No novo testamento o ato de repudiar (greg. “apoluo”) a esposa também tem o mesmo sentido, qual seja, divorciar, mandar embora de casa, despedir, deixar livre, deixar ir, colocar fora de casa (Mateus 5:31-32:3, 7-9, Marcos 10:2-12, Lucas 16:18). A lei favorecia o homem sujeitando a esposa e a vida conjugal na exclusiva autoridade do marido, pois só ele tinha liberdade plena para pedir o divórcio.

As duas correntes judaicas de interpretação de “coisas indecentes” eram capitaneadas por dois rabinos. O primeiro, rabino Hillel, com uma interpretação liberal, entendia que o divórcio podia basear-se em qualquer motivo alegado pelo marido. Por exemplo, por não amar mais a esposa; atrair-se por outra mulher mais bonita; não gostar da roupa que a esposa vestia; alegada inaptidão dela para tarefas domésticas ou outro motivo qualquer que justificasse formalmente o divórcio contra a esposa. A outra interpretação, de natureza conservadora, do rabino Shammai, defendia que “coisas indecentes” precisava envolver infidelidade conjugal ou adultério, do contrário o marido não poderia divorciar-se da esposa.

Na velha aliança o pecado do adultério era punido com a morte dos adúlteros (Lv 20:10, Deuteronômio 22:22). A lei mosaica permitia o divórcio (Deuteronômio 24:1), contudo no caso de adultério a possibilidade de divórcio era substituída pela pena de morte dos adúlteros. Logo, para o homem casado era melhor repudiar do que ser condenado à morte se fosse flagrado em infidelidade conjugal.

Pode se imaginar a ruína social e moral vigente em Israel no tempo que Jesus exerceu seu ministério nesta terra com base nessa arbitrariedade do repúdio ou divórcio, que assombrava a paz de todas as famílias. Infelizmente, não é muito diferente a insegurança que modernamente o casamento enfrenta pelo tratamento das leis civis humanas. Em nosso país, o casal pode casar-se num dia e pedir o divórcio no dia seguinte (Emenda Constitucional 66/2010, que alterou o art. 226, da CF, § 6º), sem precisar justificar nada diante da lei, pois o casamento pode ser extinto por mero egoísmo. Sem dúvida, nosso abismo moral e espiritual é maior do que aquele de Israel no tempo de Cristo.

Vê-se que o berço da família está totalmente desamparado pelas leis seculares e só focado em interesses próprios de projetos puramente pessoais, com muitos casais vivendo alheios à vontade de Deus e aos deveres espirituais de uma vida conjugal. Hodiernamente, o mundo está igual àquele tempo em Israel, pois o ímpio descasa-se a hora que bem entender, ao passo que os crentes (cristãos), em sua maioria, ainda esperam ocorrer um justo motivo, como uma traição, um ato de violência ou simples desavenças conjugais. A situação atual é a mesma daquela época, onde as leis civis favorecem o divórcio de crentes e descrentes, porém a lei divina não se afrouxa nem se amolda à vontade egoísta de homens, mas permanece válida e obrigatória para todos que professam fé em Cristo.

Embora o texto de Mt 19 seja o mais citado nesse assunto, pois traz a questão do divórcio levantada pelos fariseus na tentativa de que Jesus se posicionasse a favor de uma dessas duas correntes rabínicas, o divórcio foi primeiramente tratado por Jesus no Sermão do Monte ou da Montanha, feito no início do seu ministério. Lá foi dito o seguinte: “Também foi dito: Aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio. Eu, porém, vos digo: qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério.” (Mateus 5:31-32 - ARA).

O ensino e a declaração de Jesus conhecida como o Sermão do Monte tem forte simbologia espiritual. Faz-se um contraste entre a antiga e a nova aliança. As leis de Israel Moisés as recebeu de Deus no monte Sinai (Ex 19 e 20) e agora o Messias, o Filho de Deus, está declarando, em um monte da Galileia, os princípios elementares do reino de Deus para toda a Humanidade. Esse discurso de Jesus marca o fim do governo do povo terreno de Deus (Israel) pelas prescrições e mandamentos da lei mosaica e o estabelecimento de novos princípios e regras para governar o povo espiritual de Deus, a Igreja Cristã. Neste sermão Jesus revela como seus discípulos devem viver a vida cristã nesta terra e também na perspectiva escatológica do futuro reinado messiânico e da habitação celestial que espera os santos que foram chamados e escolhidos mediante a fé em Cristo.

As primeiras palavras do ensino de Jesus sobre o divórcio diante dos fariseus (Mt 19:4-6) foi reafirmar a estabilidade do matrimônio instituído lá no Éden (4.000 a. C.), que pela vontade de Deus é uma aliança feita para durar a vida inteira, permanência que se infere particularmente do silêncio de Deus sobre seu rompimento ou divórcio, bem se vendo que o plano original de Deus para o casamento o concebeu como uma união indissolúvel – “tornando-se os dois uma só carne” (ARA) –, de caráter perpétuo, só se extinguindo pela morte de um dos cônjuges – “até que a morte os separe”.

Jesus inicia sua fala sobre o divórcio (Mateus 5:31) lembrando que no antigo testamento era facultado ao homem repudiar (greg. “apoluo”) sua mulher e dar-lhe carta de divórcio (greg. “apostasion”), mas ao complementar essa citação a faz com uma enfática conjunção adversativa “Eu, porém, vos digo”, claramente se opondo ao que a carta de repúdio ou divórcio da lei mosaica vinha admitindo que se fizesse com a aliança do casamento, reprovando a maneira distorcida e errada com que os casais israelitas estavam se separando. Ele não só discordou do mau uso e da desordem reinante a que levaram uma aliança espiritual criada por Deus, como indicou claramente como corrigir o rumo errado que lhe deram os homens da antiga aliança com a nação de Israel, o que veremos mais adiante.

Jesus não revogou o repúdio ou a carta de divórcio, contudo lhe estabeleceu uma única hipótese: em caso de “relações sexuais ilícitas”. O termo grego relações sexuais ilícitas (greg. “porneia”) engloba toda imoralidade sexual como adultério, fornicação, homossexualismo, lesbianismo, relação sexual com animais (zoofilia ou bestialidade), relação sexual com parentes próximos (incesto), relação sexual com homem ou mulher divorciada, pedofilia, pornografia e toda perversão que envolve imoralidade sexual ou que viole a fidelidade conjugal (Mateus 5:32:9, Marcos 7:21, João 8:41, Atos 15:20, I Co 6:13,18, II Co 12:21, Gálatas 5:19, Efésios 5:3, Colossenses 3:5, I Ts 4:3 e Jd 7).* Quem incorre numa destas práticas sexuais ilícitas quebrou a fidelidade conjugal, dando azo ao divórcio permitido biblicamente.

Na língua grega a palavra adultério (greg. “moicheia”) tem seu uso limitado à infidelidade conjugal clássica, consistente na relação sexual do homem ou da mulher casados entre si fora do relacionamento conjugal, com outra parceira(o). A mulher adúltera que trouxeram a Jesus, esperando que ele a condenasse à morte por apedrejamento foi flagrada em “moicheia”, contudo o Senhor não a condenou como queriam seus acusadores hipócritas - “E os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério;” (João 8:3, Mateus 15:19, Marcos 7:21).

Portanto, o adultério não é a única causa pela qual um cristão ou uma cristã pode pedir divórcio ou repudiar a esposa/marido, mas tantas são quantas forem as perversões sexuais engendradas em mentes dominadas pelo pecado, como já dantes elencadas as hipóteses da “porneia”.

Mas, atenção: Jesus não obrigou o repúdio ou divórcio para toda infidelidade conjugal, pois, tal como Moisés, ele permitiu (greg. “epitrepo”) repudiar caso não haja arrependimento sincero do cônjuge infiel e o respectivo perdão na preservação do vínculo conjugal atingido por esse pecado - “Respondeu-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio.” (Mateus 19:8). Havendo perdão, está restaurado o relacionamento do casal e também a aliança feita diante de Deus com o compromisso de ser uma união permanente e fiel para durar a vida toda. Em síntese, o repúdio ou divórcio só ocorre não havendo perdão, o qual, sabemos, pode ser negado com base na gravidade da conduta imoral violadora do relacionamento conjugal.

E, sendo assim, como a fica a situação dos cônjuges cristãos repudiados sem que haja infidelidade conjugal ou imoralidade sexual? Eles podem se casar novamente?

Jesus tratou dessa questão em momentos isolados, um no evangelho de Marcos e outro no de Lucas, complementando o que havia dito no sermão do Monte (Mateus 5:31-32), ao responder questão arguida pelos fariseus (Mt 19), o que fez esclarecendo dúvida de seus discípulos. Entrementes, no capítulo sete da primeira Carta aos coríntios (I Co 7) o apóstolo Paulo traz novas revelações transmitidas a ele por Jesus Cristo sobre o casamento e o divórcio cristão – “Todavia, aos casados mando, não eu mas o Senhor, que a mulher não se aparte do marido.” (I Co 7:10) – que necessariamente precisam ser coligidas e analisadas juntamente com os textos já examinados para se chegue a bom entendimento.

Então, vejamos as instruções bíblicas acerca da primeira pergunta – como fica a situação dos cônjuges cristãos que se divorciam sem motivação na infidelidade conjugal?

A resposta foi dada por Jesus: Se não houver motivo justificado em “relações sexuais ilícitas” (“porneia”), o novo casamento de ambos os cônjuges crentes configura adultério – E ele lhes disse: Qualquer que deixar a sua mulher e casar com outra, adultera contra ela. E, se a mulher deixar a seu marido, e casar com outro, adultera.” (Marcos 10:11-12, Lucas 16:18). Vejam que situação. Deus não impediu que cônjuges cristãos se divorciem quando não há infidelidade conjugal, podem até se divorciarem pela própria vontade, contudo impôs-lhes uma condição de solteiro forçada, pois ambos não podem se casar novamente. Quem primeiro quebrar essa regra, no divórcio imotivado, comete adultério contra o outro cônjuge.

Logo, todo divórcio por motivo egoísta insere marido e mulher no regime de disciplina da solteirice forçada, pois aquele que contrair novo casamento comete adultério, pecado que lhe acarreta culpa no divórcio e rompe seu relacionamento com Deus. A disciplina ou a solteirice dos cônjuges separados presta-se como um tempo de reavaliação de decisões e pensamentos afetados pela ira, egocentrismo, irresponsabilidade, imprudência ou confusão de sentimentos, mas principalmente para se buscar socorro na fé clamando pela manifestação e a intervenção de Deus na contenda familiar - “Clamarei ao Deus Altíssimo, ao Deus que por mim tudo executa. Ele dos céus me envia o seu auxílio e me livra; cobre de vergonha os que me ferem. Envia a sua misericórdia e a sua fidelidade.” (Salmos 57:2-3 – ARA).

A propósito, considera-se egoísta todo e qualquer motivo injustificado, divergências, caprichos e incompatibilidade levantados como pretensa base moral do divórcio ou repúdio, como por exemplo a alegação “eu não a amo mais”, “acabou o sentimento que nos uniu”, “com os filhos as coisas mudaram”, “tenho novos planos para minha vida”, “eu sempre vou sozinho(a) à igreja”, “minha cabeça hoje é diferente” e outras alegações semelhantes. Se realmente há impedimento no sentimento que atenta contra o casamento, o cônjuge afetado deve orar a Deus, pois quem criou o coração e todos os sentimentos humanos tem poder para curar e até trocar o sentimento ruim por um sentimento bom. Muitos problemas conjugais não têm solução humana, porquanto só Deus tem o conselho e o remédio para sua restauração, visto que só ele pode mudar o interior da alma.

Avulta-se para nós que o período da solteirice é um tempo de disciplina ou tempo de reconciliação na vida de ambos os cônjuges separados, tempo de reflexão sobre suas responsabilidades diante de Deus e da própria família, bem como das consequências materiais e espirituais indesejadas que o repúdio egoísta provoca. O tempo da disciplina para o marido e para a mulher separados é tão precioso diante de Deus que se uma terceira pessoa aproximar-se de um deles em busca de relacionamento amoroso, aproveitando-se da separação momentânea, tal pessoa é considerada adúltera, trazendo sobre esse “invasor” o juízo da maldição espiritual desse pecado – “e o que casar com a repudiada também comete adultério.” (Mt 19:9b, Lc 16:18b), demonstrando cabalmente que a manutenção da aliança do casamento tem particular interesse de Deus. Tal como o sinal que Deus colocou em Caim para que ninguém o matasse vingando a morte de Abel, marca que jamais foi vista, porém todos sabiam que sobre a vida de Caim havia proteção divina com base na misericórdia do Senhor (Gênesis 4:15), também sobre a solteirice dos cristãos separados há uma proteção divina contra aqueles que venham procurá-los para um novo casamento.

O tempo da disciplina ou regra da solteirice tem uma exceção: se o marido ou a mulher descrente apartar-se do cônjuge cristão, o repudiado(a) não está obrigado a cumprir o período de disciplina que cumprem os cônjuges quando os dois são cristãos (I Co 7:15), ficando “fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor.” (I Co 7:39). Por que é assim? Provavelmente porque a aliança do casamento é um compromisso só do cônjuge cristão diante de Deus, pois Deus não tem compromisso com quem não lhe obedece.

A necessidade e a eficácia desse tempo de reflexão dado ao casal separado têm exemplo bíblico. Moisés foi o primeiro registro bíblico de homem repudiado pela esposa. Zípora desviou-se (hebr. “raphah”) ou o abandonou quando estava a caminho do Egito para libertar o povo de Israel da escravidão do Egito - “E desviou-se dele. Então ela disse: Esposo sanguinário, por causa da circuncisão.” (Êxodo 4:26). Todavia, tempos mais tarde, Zípora foi procurar Moisés no acampamento do monte Sinai juntamente com seus filhos e ele a recebeu de volta (Êxodo 18:1-7). Em tom de desprezo ou de ciúme, Zípora é chamada de mulher cuxita por Miriã e Arão, irmãos de Moisés (Números 12:1), por causa da sua origem africana – Cuxe era uma região ao sul do Nilo (Etiópia).

Para os judeus – e também para muitos cristãos até hoje – esta fórmula bíblica que regula a pós-separação dos cônjuges que não têm motivação legítima para o divórcio é radical demais, entendendo ser uma solução muito rigorosa. A regra da solteirice do marido que repudiar a esposa imotivadamente causou grande assombro nos discípulos de Jesus, como ainda causa perplexidade em muitas almas que desejam romper o vínculo do casamento com base em divergências e sentimentos pessoais, não estando presente a causa bíblica que justifica o divórcio. No entanto, esta ordenança foi dada por Jesus Cristo à Igreja e também reforçada na doutrina apostólica da Igreja Primitiva de forma explícita, não se podendo um casal cristão alegar ignorância – “Se, porém, se apartar, que fique sem casar, ou que se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher.” (I Co 7:11). Nota-se que Jesus e Paulo falou a mesma coisa sobre a regra da solteirice para quem se divorcia sem preencher o requisito bíblico.

O espanto dos discípulos ficou registrado no evangelho após o diálogo que Jesus teve com os fariseus, imediatamente ao ouvirem o ensino de Jesus – “Disseram-lhe seus discípulos: Se assim é a condição do homem relativamente à mulher, não convém casar.” (Mateus 19:10). Todavia, Jesus não aliviou nem quis agradá-los, pelo contrário reafirmou ser esta a regra do casamento diante de Deus - “Ele, porém, lhes disse: Nem todos podem receber esta palavra, mas só aqueles a quem foi concedido.” (Mateus 19:11). Com isso Jesus deixou claro que o desejo sexual não é mero instinto, mas um dom ou dádiva inerente à natureza humana e deve ser satisfeito mutuamente dentro dos limites éticos do casamento (I Co 7:3-5), destacando o valor e a importância que os cônjuges devem dar à fidelidade matrimonial para que possam permanecer casados, numa vida em comum que lhes permitem cumprir o propósito celestial e a plena realização dos desejos personalíssimos do homem e da mulher unidos numa só carne.

A resposta de Jesus com base na solteirice voltou lá no Éden. Na origem, Deus criou a mulher depois de ter visto que a alma de Adão estava incompleta, não se alegrava, mesmo tendo domínio sobre todos os animais e toda a criação divina (Gênesis 1:28:19). Deus viu que o coração do homem se sentia vazio, solitário e incompleto, precisando de algo para tirar-lhe essa inquietude da alma. Foi com base nessa necessidade comprovada na vida do Adão que Deus criou a mulher e instituiu o casamento como uma obra divina e um propósito na vida do homem e da mulher. Eis a razão pela qual o homem unir-se à mulher é um pendor natural e inato, pois há esse registro sentimental que perdura desde sua criação. Este é o significado da resposta de Jesus – “Nem todos podem receber esta palavra, mas só aqueles a quem foi concedido.” (Mt 19:11). Desde então solteirice ou celibato na vida do homem e da mulher passou a ser uma exceção, espécie de dom especial concedido a algumas pessoas, do contrário será uma luta inglória contra sua própria natureza e vocação interior. O apóstolo Paulo era solteiro, contudo entendia que não era uma condição fácil – Porque quereria que todos os homens fossem como eu mesmo; mas cada um tem de Deus o seu próprio dom, um de uma maneira e outro de outra. Digo, porém, aos solteiros e às viúvas, que lhes é bom se ficarem como eu.” (I Co 7:7-8).

No capítulo sete da Primeira Carta aos Coríntios (I Co 7), o apóstolo discorre à Igreja acerca da questão do casamento, da solteirice ou celibato e da proibição do divórcio por egoísmo pessoal, dizendo que o homem e a mulher naturalmente têm inclinação interior à união conjugal, daí não ser fácil permanecer celibatário lutando contra esse pendor da natureza física à procriação e à satisfação do desejo carnal, aconselhando que “se não podem conter-se, casem-se”, pois o controle dos impulsos sexuais só é eficaz para três grupos de homens, conforme ensinou Jesus Cristo – a) aos eunucos que assim nasceram do ventre do mãe – homens nascidos com impotência ou com deformidades físicas que lhes neutralizam a aptidão para gerar filhos, b) eunucos que foram castrados pelos homens – homens que têm o órgão genital masculino removido impedindo relações sexuais, e c) eunucos que se castraram a si mesmos por causa do reino dos céus – alguém que voluntariamente se abstêm de se casar (Mt 19:12). A palavra eunuco (greg. “eunouchos”) foi usada por Jesus para designar alguém naturalmente incapacitado para o casamento, incapacitado para gerar filhos ou alguém que voluntariamente abstém-se do casamento,* não com o sentido de oficial, mordomo, camareiro nem com o sentido de homem pervertido sexualmente que se inflama por outro homem (Romanos 1:27).

Quando Jesus diz que “há eunucos que se castraram a si mesmos, por causa do reino dos céus.” (Mateus 19:12), é uma referência aqueles homens que desistiram ou abriram mão do casamento por causa das coisas do Reino de Deus, os quais normalmente são revestidos por um dom ou força especial concedido por Deus que os sustenta como celibatário sem violar o compromisso do serviço para o qual foram chamados.

Chegamos à segunda pergunta – os cônjuges divorciados podem casar novamente?

A segunda grande mudança trazida por Jesus, o Filho de Deus, ao regime do divórcio praticado em Israel – a primeira foi limitar o divórcio à infidelidade conjugal ou imoralidade sexual - foi substituir a pena de morte dos adúlteros pelo pecado de adultério (Êxodo 20:14), transgressão que traz a morte espiritual por afastar o cônjuge infiel da comunhão com Deus. O adultério tornou-se uma ofensa espiritual consciente e voluntário contra o propósito de Deus para as famílias, que é a permanência perpétua e o vínculo indissolúvel do casamento entre o marido e a mulher. O divórcio sem motivação bíblica tornou-se uma transgressão grave contra a união do homem e da mulher em uma só carne, feita por Deus na criação do casamento (Gênesis 2:22-24) e Jesus advertiu o homem para não fazê-lo – “Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem.” (Marcos 10:9).

Por conseguinte, o novo casamento foi permitido por Jesus havendo infidelidade conjugal – “relações sexuais ilícitas” (Mateus 19:9), sejam os cônjuges crentes ou descrentes, pois a infidelidade de qualquer dos cônjuges é o pecado que destrói física e espiritualmente a aliança do casamento, bem como que esse pecado pode ser praticado depois da separação imotivada ou egoísta do casal (Marcos 10:11-12). Em havendo infidelidade, o recasamento pelo cônjuge inocente pode ser feito imediatamente ao divórcio.

Pelo novo testamento, o princípio que rege o divórcio cristão imotivado apregoa que se o cônjuge cristão for embora e separar-se do marido ou da mulher, não poderá casar-se de novo impunemente. Se o fizer, incorre em adultério. O cônjuge crente jamais poderá romper o vínculo matrimonial sem justo motivo. Como repudiador, terá que cumprir o período de disciplina como solteiro(a), tempo no qual poderá haver a reconciliação entre si e o cônjuge repudiado, restaurando-se o casamento. Neste aspecto, o apóstolo Paulo doutrinou que Deus proíbe o divórcio mesmo quando a mulher crente tiver marido descrente, pois a aliança espiritual do casamento abençoa toda sua família e o cônjuge descrente é santificado pelo marido ou pela mulher crente juntamente com os filhos (I Co 7:12-13).

Mas, e no caso de repúdio ou divórcio egoísta, sem motivação que o justifica, como se define quem é o cônjuge inocente? Reafirma-se, que a culpa pelo fim do casamento é imputada àquele que abandonou definitivamente o outro, rompendo o vínculo conjugal pelo novo casamento. É o ato de casar-se novamente com outra pessoa que encerra o tempo da disciplina ou da reconciliação entre os cônjuges separados que define qual cônjuge é o inocente e qual é o culpado. O método de definição do cônjuge inocente foi dado por Jesus quando disse que aquele que deixar sua mulher e casar com outra adultera contra, ou se a mulher deixar seu marido e casar com outro, também adultera (Marcos 10:11-12, Lc 16:18a). No entanto, Paulo fala mais diretamente sobre a culpa e a responsabilidade espiritual pelo divórcio quando instruiu os crentes coríntios sobre o casamento - Todavia, aos casados mando, não eu mas o Senhor, que a mulher não se aparte do marido. Se, porém, se apartar, que fique sem casar, ou que se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher.” (I Co 7:10-11). Portanto, cônjuge inocente é aquele que mesmo separado do outro permaneceu solteiro à espera da reconciliação e restauração do casamento afetado pelo divórcio, honrando a aliança espiritual testemunhada por Deus. Assim, no divórcio egoísta o primeiro cônjuge a se casar novamente comete adultério, faz-se culpado pelo fim do casamento e atribui ao outro cônjuge a condição de parte inocente no divórcio concretizado.

Em síntese, o novo casamento é livre para o cônjuge inocente na hipótese de divórcio por causa de infidelidade conjugal, mas no divórcio imotivado nenhum dos cônjuges está livre para se casar, a menos que algum dos dois incorra em adultério casando-se novamente.

Não podemos considerar e a Bíblia não considera o divórcio somente uma questão legal, regido tão só pelas leis civis, sem implicações espirituais, como entendiam os fariseus na época de Jesus, pois o repúdio rompe uma aliança da qual Deus participa, anulando as bênçãos especiais que ele tem para cada família. É por isso que Deus abomina o repúdio - “Porque o Senhor, o Deus de Israel diz que odeia o repúdio, e aquele que encobre a violência com a sua roupa, diz o Senhor dos Exércitos; portanto guardai-vos em vosso espírito, e não sejais desleais.” (Malaquias 2:16).

Irmãos, acabamos de examinar um assunto bíblico de profunda inquietude no meio do povo do Senhor, sobretudo porque Satanás colocou a família judaico-cristã como alvo de seus ataques e investidas malignas, por isso devemos orar sem cessar pelas famílias cristãs, pedindo proteção e livramento contra todo tipo de imoralidade sexual (“porneia”) causadora da infidelidade conjugal, que atenta contra a permanência da aliança do casamento bíblico monogâmico e heterossexual, problema presente nas igrejas cristãs atuais como antecipadamente foi mostrado profeticamente por Jesus no Livro do Apocalipse, precisamente na igreja de Pérgamo (Apocalipse 2:14) e na igreja de Tiatira (Apocalipse 2:20-21) onde já havia “relações sexuais ilícitas” (“porneia”), ressaindo de tudo isso a importância de pastores e líderes religiosos cristãos aconselharem corretamente o rebanho com fundamento na vontade divina revelada nas Escrituras, a fim de não incorrerem em permissividade nem em intransigência destituídas de amparo na palavra de Deus.

Senhor Deus, em nome de Jesus, pedimos que mantenha diante de seus olhos todas as famílias da terra, dando força para permanecermos fiéis a ti e livramento de todo poder do mal que atentar contra a aliança do casamento, seja procedente de vontade humana ou de força demoníaca.

*Dicionário Strong

**© Texto bíblico: ACF – SBTB