Enganoso é o coração do homem
“Enganoso é o
coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jr
17:9)
A palavra bíblica enganoso
(hebr. “aqob”) significa astucioso,
traiçoeiro, matreiro, rastro. A raiz hebraica (“qb”) que dá origem a palavra enganoso significa trapaça, engano,
segurar no calcanhar, atacar o calcanhar, criando-se entendimento de referir-se
a um ato, uma condição traiçoeira, ou ainda a uma pessoa sagaz e perspicaz. Ser
atacado no calcanhar significa ser atacado pelas costas.* É o ataque preferido
da serpente (Gênesis 49:17). Jeremias usou a mesma raiz hebraica para dizer da perda
geral de confiança entre os homens de Judá, por causa do engano (hebr. “aqab”) e desconfiança que havia se
alastrado no meio deles como consequência do pecado, próprio de pessoas que
convivem num grupo ou sociedade corrompida moralmente – “porque todo o irmão não faz mais do que enganar” (Jeremias 9:4) -, sinal
evidente, naquela sociedade, de um reino em decadência social. Atualmente os
golpes e fraudes, principalmente as digitais cometidas com ajuda das modernas
tecnologias, têm causado semelhante insegurança social, como a perda de
confiança em se relacionar, em conversar com estranhos e até em atender pessoas
ou chamadas desconhecidas.
Lá no Éden, o Senhor Deus
colocou inimizade entre a serpente e a mulher (Gênesis 3:15), dizendo a Satanás que
a semente da mulher (Cristo) atingiria sua cabeça e a semente da serpente
feriria o calcanhar (hebr. “qb”) da
semente ou descendência da mulher (a humanidade), mostrando a maneira ardilosa,
traiçoeira e astuta com que Satanás e seus demônios agiriam contra os homens
para derrubá-los da presença de Deus e levá-los à perdição. O apóstolo Paulo atualiza
este ensinamento quando fala da batalha espiritual dos cristãos contra o diabo
– “Revesti-vos
de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas
ciladas do diabo.” (Ef 6:11).
O nome Jacó (hebr. “Yaqob”) significa literalmente “aquele que segura o calcanhar”,* o que
no nascimento dos gêmeos Esaú e Jacó (Gênesis 25:26), o uso da raiz “qb” representou o fato de Jacó ter vindo
à luz segurando o calcanhar de Esaú, ao tempo que profetizou os enganos ou
fraudes que Jacó futuramente praticaria contra seu irmão Esaú. Há outras
palavras hebraicas para se referir ao engano, à fraude, traição ou
desonestidade que usadas em toda Bíblia – como “tarmith” (Jeremias 14:14), “mirmah”
(Provérbios 12:20) e “kazab” (Provérbios 6:19:5.
9) -, mas a raiz “qb” é usada
especialmente para o ato traiçoeiro, à semelhança da serpente quando morde o
calcanhar do cavalo e faz um animal gigante cair morto diante dela (Gênesis 49:17).
Interessante, ainda, no
entendimento do que seja um coração enganoso, observar a formação da palavra
coração (hebr. “leb ou lebab”) na
língua hebraica. A palavra “leb” é
formada originalmente no hebraico pela letra “L” (“lamed” - “ל”) + “B” (“bet” - “ב”),
pois o hebraico é uma língua consonantal, com as vogais representadas por
sinais diacríticos ou simplesmente inferidas do contexto.
A letra “lamed” - “ל” tem
a aparência de um cajado, símbolo da autoridade do pastor de ovelhas. O pastor
possuía a vara (hebr. “shebet“) ou
bordão, tipo de um porrete preso à cintura, símbolo de proteção e autoridade, e
também o cajado (hebr. “mishenah ou
misheneth“), espécie de bengala para apoio no caminhar do pastor em
terrenos irregulares, o qual tinha a ponta curva para direcionar (cutucando) as
ovelhas que se desgarravam do rebanho. Daí que o significado geral dessa letra
é direção, aprender/aprendizado e ensinar (“limmud”).
A autoridade do cajado dá direção (esclarece a vocação da nossa vida), bem como
que durante nossa existência somos submetidos ao aprendizado (busca do
conhecimento) e incentivados a ensinar (transmissão de conhecimento e
sabedoria) outras pessoas com aquilo que ficou guardado no coração. Em suma, “lamed” sintetiza direção, autoridade,
aprendizado e ensino, etapas ou momentos na existência de cada alma que vem ao
mundo.
Verifica-se que o
coração é, ao mesmo tempo, porta de entrada e de saída conhecimento, daí a
importância de se fechar sua entrada para toda influência mundana ou maligna, e
manter sempre aberta a porta para que a palavra de Deus entre e seja guardada
no seu interior, sabendo-se que a boca e os lábios falam do que o coração tem dentro
dele. Se nele estiver armazenado coisas boas tudo irá bem e a semeadura dará
ótimas colheitas, porém se guardar coisas más, o mal que sair dele tem o efeito
de veneno na destruição do próprio homem e de outras pessoas - “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas
coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca.”
(Mateus 12:34, Marcos 7:20).
Por sua vez, a letra “bet” - “ב” tem
o formato do contorno de uma tenda nômade ou planta baixa de uma tenda, fechada
nas laterais e no fundo, mas aberta na frente. Assim, em sendo o esboço do
local de uma moradia essa letra significa casa (hebr. “bayith”), família, interior, dentro de, habitação.
Unindo-se o significado
destas duas letras hebraicas que formam a palavra coração entende-se
literalmente que o coração é a autoridade dentro da casa (cada pessoa), ou
seja, no interior do homem ou do homem interior (espiritual), governando com
absoluto poder de escolha tudo que se manifesta no comportamento humano, bem
como exercendo o controle dos pensamentos, sentimentos, vontade e condutas. No
coração está o centro da autoridade, do poder e da direção de cada vida ou alma
vivente. Esta dimensão do poder do coração recomenda a todos nós que devemos
enchê-lo com coisas boas, emoções e pensamentos bons, se quisermos estar
felizes no dia da colheita daquilo que plantamos ou deixemos entrar no coração.
Foi isso que ensinou Jesus sobre nosso coração – “O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem, e o homem mau,
do mau tesouro do seu coração tira o mal, porque da abundância do seu coração
fala a sua boca.” (Lucas 6:45).
No pensamento
bíblico-hebraico o coração é o centro das emoções, sentimentos e dos
pensamentos humanos. Quer sejam bons quer sejam ruins vão sair do coração. O
coração é a fonte do desejo, alegria, ódio, tristeza, ira, bondade ou malícia.
Ou seja, é um depósito de coisas que precisam estar sob cuidadoso controle da
verdade, máxime pela mistura de informações e sentimentos ali guardados, pois,
não havendo domínio da verdade e inclinação para as coisas do Espírito, a
predominância do mal nele existente poderá abrir sua caixa de Pandora,
levando-o ao colapso espiritual e moral. Está dito que naturalmente coração
humano é perverso, já nasce propenso ao mal por ser fruto do pecado original na
queda do homem, conforme revelado pelo salmista inspirado - “Se eu atender à iniqüidade no meu coração, o Senhor não me ouvirá;”
(Salmos 66:18:5, Gênesis 8:21). Se assim é, uma alma para ser boa, justa e santa
precisa ser edificada pela palavra de Deus, fonte de amor, bondade, santidade,
justiça e misericórdia.
Neste sentir, por natureza, o coração é a fonte do pecado da humanidade. Nele está o mal do engano, da mentira, do homicídio, da luxúria, do adultério, da falsidade, do orgulho e do ódio. Todo pecado começa no coração, quando nele surge a concupiscência. A concupiscência está dentro do coração do homem, faz parte da sua própria natureza carnal, agindo como a faísca do fósforo ao acender o desejo do mal em tudo que contraria as leis divinas (Tiago 1:14-15), pelo que a concupiscência só será reprimida se for confrontada pelo poder da palavra de Deus e de Cristo (Romanos 13:14).
Pode se comparar o
coração como uma esponja que absorve tanto água limpa quanto água suja, pelo
que é essencial manter nosso coração perto da verdade, do amor e da bondade,
mas longe da mentira, da malícia e do ódio. Entrementes, só Deus conhece o
coração dos homens e o esquadrinha para revelar tudo que está oculto em suas
intenções, pensamentos, e sentimentos - “Mas
tu, ó Senhor, me conheces, tu me vês, e provas o meu coração para contigo;”
(Jr 12:3b, Salmos 139:1-4, Atos 1:24).
Quando a sabedoria
divina diz “sobre tudo o que se deve
guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida.” (Pv
4:23), tem-se que o verbo guardar (hebr. “natsar”)
expressa o ato de vigiar, cuidar, guardar de perigos, guardar com fidelidade,
ser mantido fechado ou bloqueado.* Logo, eis aí um alerta para que se mantenha
fechada a porta de entrada do coração para coisas que não procedem dos
conselhos divinos, mas que vêm de procedência maligna ou imoral, maledicências,
invejas, vaidades, desejos errados ou pecados, posto que aquilo falamos ou
fazemos reflete o que está guardado no interior do coração. No aspecto
espiritual, é justamente quando o pecado entra na vida do homem que tudo começa
a ficar embaraçado. O diabo usa o pecado para fazer o homem natural perder o
controle e a visão da vida abençoada que há em Cristo Jesus, usando as setas e
dardos inflamados contra seus sentimentos e pensamentos para enfraquecê-lo, com
intuito de vê-lo prostrado e derrotado.
Jesus também aconselhou seus discípulos a guardarem o coração de más influências, por ser de onde saem os sentimentos negativos e os pecados que estão guardados escondidos no interior dos homens – “Mas, o que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem. Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, fornicação, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias.” (Mateus 15:18-19). O verbo contaminar (greg. “koinoo”) é o ato de tornar-se imundo, impuro, corrompido ou profano, estado da coisa ou pessoa que são opostas ao espiritual, sagrado ou religioso.*
Noutras palavras, para
se ter um coração sincero e bom faz-se necessário viver nutrido por uma fonte
de vida que jorra coisas boas, como paz, alegria, saúde, prosperidade,
paciência e amor. O coração quando é fonte de bons sentimentos nele se produz o
fruto do Espírito - “amor, gozo, paz,
longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança.” (Gálatas 5:22),
mas quando o coração é uma fonte de sentimentos e pensamentos ruins ele só
produz as humilhantes e destrutivas obras da carne - “adultério, fornicação, impureza, lascívia, Idolatria, feitiçaria,
inimizades, contendas, ciúmes, iras, pelejas, dissensões, heresias, Invejas,
homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das
quais de antemão vos declaro, como também já antes vos disse, que os que
cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus.” (Gálatas 5:19-21).
Um coração cheio da
verdade é chamado de coração puro, condição indispensável para quem quer se
aproximar de Deus (Salmos 24:3-4). A principal característica de um coração puro é
que sua porta está fechada para as influências do pecado, ele não deixa entrar
sentimentos nem pensamentos pecaminosos, posto que tem compromisso com o
conhecimento e a prática da verdade. Mas, a porta dele está sempre aberta para
a palavra de Deus que santifica todo seu interior e o refrigera das aflições e
tribulações do mundo. Um coração puro está sempre em alerta e de prontidão espiritual
por saber que o coração se endurece pelo engano do pecado (Hebreus 3:13).
Todo coração deixa de
ser enganoso ou enganado pelos ardis do diabo e pelas ilusões do mundo quando o
homem ouve e obedece a palavra de Deus, pois, nesse instante, gera-se temor dentro
do coração, ponto a partir do qual o poder divino neutraliza o erro, a mentira,
o engano, as dúvidas e as confusões que invadem a alma humana. Só a verdade da
palavra de Deus cancela a mentira, o engano e todo sentimento de procedência
maligna do coração, tornando-o fiel, sincero e justo.
Têm pessoas que dizem sim com os
lábios, mas dizem não com o coração. Quantas amizades e até casamentos são
celebrados com intenções ocultas distintas do que aparentam ser e quantos
sorrisos encobrem o ódio? Isso só vem à tona pelo discernimento espiritual, do
contrário são situações perigosas que fermentam o coração como uma
bomba-relógio preste a mandar tudo pelos ares, causando ruína sentimental,
financeira, conjugal e espiritual em vidas que viviam sob direção de um coração
enganoso.
Conseguintemente,
tem-se que a restauração de um coração ruim ou enganoso é feita pelo
conhecimento da verdade e da vontade de Deus como se ensina na doutrina
apostólica - “E não sejais conformados
com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento,
para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.”
(Romanos 12:2). Eis aí o alento bíblico para não se cair no conformismo de um
coração enganoso, para fugir da tragédia espiritual por causa do pecado que
nele habita e experimentar o sabor da verdadeira felicidade existencial, qual
seja, a renovação do coração/mente que se opera pela edificação espiritual e
com o poder da palavra divina, através do conhecimento e prática da boa,
agradável e perfeita vontade de Deus.
Senhor Jesus, ensina-nos com a tua palavra a fugir do engano e da traição do nosso coração, para que não sejamos iludidos pela artimanha de Satanás nem pelas coisas temporárias deste mundo, mas que pela tua graça permaneçamos firmes e inabaláveis na fé, pela força do poder do teu evangelho guardado no coração de homens e mulheres santos.
* Dicionário
Strong