Mensagem Bíblica

Paulo foi chamado de “Pregador idiota” em Corinto

Paulo foi chamado de “Pregador idiota” em Corinto

  • Éder de Souza
  • Tempo de Leitura 9 Minutos

Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos.” (Mateus 11:25).

Embora o apóstolo Paulo fosse um rabino formado sob o rabinato de Gamaliel (Atos 22:3), alguns crentes coríntios viram nele certas limitações como pregador, que os levaram a criticá-lo como uma pessoa simplória e de falar rude (greg. “idiotes”), sinônimo de alguém despreparado na arte de falar, grosseiro, inculto, não letrado, sem habilidade em qualquer arte, pessoa idiota* - E, se sou rude na palavra, não o sou contudo no conhecimento; mas já em todas as coisas nos temos feito conhecer totalmente entre vós.” (II Co 11:6). Essa afronta veio sobre o apóstolo da igreja de Corinto, na Grécia, berço da filosofia e fonte da cultura mundial, podendo se entender que não obstante esses gregos fossem letrados eles não tinham conhecimento espiritual (At 17:32-34), nem humildade para reconhecerem sua própria ignorância e pequenez diante das coisas de Deus.

É isso: daquele tempo para hoje muitas coisas mudaram, menos a ignorância do mundo nas coisas espirituais, pois essas afrontas persistem sobre muitos outros mensageiros cristãos de vida humilde que foram chamados para servir a Cristo. Homens santos e humildes muitas vezes são alvos de chacotas, zombarias e confundidos com pessoas fracas e idiotas, o que ocorre geralmente nas igrejas onde há bodes no meio dos santos ou entre almas ignorantes espiritualmente.

O homem santo deve ser perito e conhecedor das Escrituras, vez que será com base nela que orará a Deus clamando por intervenção divina sobre alguém ou sobre o rebanho. Homens santos e consagrados alimentam-se continuamente da palavra de Deus porque ao seu coração agrada muito conhecer cada vez mais o Senhor Deus, pois isso lhe dá força e revigora a fé – “Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor; a sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra.” (Oséias 6:3).

Não devemos esquecer que Deus capacita quem é chamado, “porque bem vedes, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados.” (I Co 1:26). A principal preocupação que os santos devem ter com a formação de seus pastores e líderes religiosos não é a capacitação intelectual, acadêmica, mas sua formação espiritual de base bíblica, conhecimento da palavra de Deus, comunhão e intimidade com o Senhor. Há muitos intelectuais e doutores em questões teológicas que não conhecem a perfeita vontade de Deus, não têm vida consagrada nem coração puro e fiel - “O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica.” (II Co 3:6) -, pois confiam mais naquilo que aprenderam em livros, cursos e graduações do que nas experiências vivenciadas na presença de Deus. Não é difícil encontrar eles quem nunca fez um jejum de Ester ou sequer foi orar no monte.

É fato que alguns homens santos não têm boa instrução educacional, são homens simples, porém, mesmo falando errado algumas palavras do vernáculo neles se manifesta o poder de Deus. É isso que interessa no meio do povo de Deus, não a formação eclesiástica nem o intelectualismo religioso, os quais temos vistos são frequentemente usados para acobertarem muitos enganadores, lobos e empresários religiosos que negociam com a palavra de Deus – “Porque nós não estamos, como tantos outros, mercadejando a palavra de Deus; antes, em Cristo é que falamos na presença de Deus, com sinceridade e da parte do próprio Deus.” (II Co 2:17 - ARA).

Os fariseus eram um grupo de judeus que se vestiam com roupas talares ou religiosas, aparentavam conhecer a lei mosaica, contudo não a cumpriam em suas vidas nem viviam o que pregavam como observou Jesus – “Dizendo: Na cadeira de Moisés estão assentados os escribas e fariseus. Todas as coisas, pois, que vos disserem que observeis, observai-as e fazei-as; mas não procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não fazem;” (Mateus 23:2-3).

O profeta Amós era agricultor quando foi chamado para ministrar a palavra de Deus no reino de Israel (Samaria), contudo por meio dele o poder divino se manifestou grandemente diante de um povo rebelde e idólatra. Ele mesmo dizia que não tinha formação religiosa, pois foi um servo chamado fora dos círculos religiosos de Jerusalém, tampouco era da linhagem sacerdotal, pelo contrário era um homem de campo, pastor de ovelhas na cidade de Tecoa, território de Judá – “E respondeu Amós, dizendo a Amazias: Eu não sou profeta, nem filho de profeta, mas boiadeiro, e cultivador de sicômoros. Mas o Senhor me tirou de seguir o rebanho, e o Senhor me disse: Vai, e profetiza ao meu povo Israel.” (Amós 7:14-15).

Sabemos que para alguém ser cheio da unção do Espírito Santo no ofício ministerial é necessário esvaziar-se de coisas más e inúteis que a velha natureza acumulou por longos anos, mas principalmente que seja alguém que “procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.” (II Tm 2:15).

É certo que Deus capacita os fracos e dá sabedoria aos indoutos. O Senhor quer vaso sem trincas e sem sujeira para encher de azeite, razão pela qual o preparo e a capacitação espiritual podem durar anos na vida de quem será usado numa obra espiritual – a preparação do apóstolo Paulo, desde sua conversão, durou cerca de treze anos. Todo vaso bom passa um tempo nas mãos do oleiro (Jr 18), assim como o odre bom também tem que ficar um certo tempo na fumaça (Salmos 119:83).

Um pastor que aconselha pessoas sem conhecer toda a palavra de Deus é como um médico que não sabe prescrever remédios eficazes para seus pacientes, o que pode levar à morte aqueles que estão sob seus cuidados. Infelizmente temos visto aumentar o número de homens e mulheres que desejam o poder religioso do episcopado (I Tm 3:1), sem a contrapartida do indispensável conhecimento da plena vontade de Deus pelo conhecimento de toda sua palavra. Poucos podem dizer o que o apóstolo Paulo disse ao se despedir da igreja de Éfeso que ele pastoreou por vários anos – “Porque nunca deixei de vos anunciar todo o conselho de Deus.” (Atos 20:27).

Saber fazer um sermão, ter boa oratória ou formação intelectual não substitui a superior formação espiritual exigida por Deus – “Porventura não te escrevi excelentes coisas, acerca de todo conselho e conhecimento, Para fazer-te saber a certeza das palavras da verdade, e assim possas responder palavras de verdade aos que te consultarem?” (Provérbios 22:20-21). Todo pastor ou liderança cristã deveria resistir em ajudar ou aconselhar irmãos fora dos conselhos bíblicos, com pareceres e indicações próprios de um profissional secular – embora os aconselhados fiquem livres para continuar o tratamento ou procurá-los -, pois, têm situações que o remédio correto vai exigir mudança de rota, desconstrução de perspectivas humanas e total confiança e esperança no agir poderoso e milagroso da palavra de Deus. Ademais, igreja não é consultório de psicólogos ou de médicos nem escritório de advogado, mas é, em essência, um pronto-socorro espiritual da alma aflita, angustiada e desconsolada.

Assuntos como direito à vida, casamento, divórcio, criação de filhos, perversão sexual, aborto, relação empregador x trabalhador, respeito aos pais, assistência social e tantos outros que envolvem cristãos devem ser aconselhados e instruídos nas igrejas com base nas Escrituras Sagradas, embora muitos deles estejam regulados por leis humanas e até em confronto com a palavra de Deus, pois sabemos que a visão do mundo nem sempre coincide nem protege os bens e valores fundamentais do ser humano no mesmo patamar que os protegem os textos bíblicos.

Para defender a dignidade da pessoa humana os pastores e líderes religiosos não precisam sequer conhecer o que prescrevem as leis seculares, por não haver maior proteção do que aquilo que está prescrito na Lei do Espírito e da vida, a qual deve ser ensinada e conhecida de todos os irmãos de fé.

A ênfase da mensagem impõe relembrar que verdades espirituais não são compreendidas nem discernidas por homens naturais, aqueles sem inspiração divina vinda do Espírito Santo, aos quais as mesmas são inúteis ou incompreensíveis, assim como a sabedoria de um “provérbio na boca dos tolos” (Provérbios 26:7), pois se sabe, verdade e preciosidades espirituais somente podem ser extraídas corretamente de textos bíblicos por homens sábios com espíritos vivificados pelo poder de Deus – “Quem é como o sábio? E quem sabe a interpretação das coisas? A sabedoria do homem faz brilhar o seu rosto, e a dureza do seu rosto se muda.” (Eclesiastes 8:1). O homem espiritual ou sábio, ainda que revestido de aparência simples e humilde, não só discerne com clareza todas as coisas como igualmente sabe o tempo e o modo certo de fazer e ordenar que se faça algo com base somente nos conselhos divinos da palavra de Deus.

Pai, precisamos de ti, precisamos conhecer mais sua vontade, pois só a tua palavra tem poder para libertar, curar, restaurar e salvar nossa alma e as famílias de toda enfermidade, aflição ou angústia, porquanto a paz e a saúde perfeita que almejamos está em o nome de Jesus Cristo.

*Dicionário Strong

**© Texto bíblico: ACF – SBTB