Mensagem Bíblica

Odre na fumaça: um tipo de provação especial

Odre na fumaça: um tipo de provação especial

  • Éder de Souza
  • Tempo de Leitura 24 Minutos

Já me assemelho a um odre na fumaça; contudo, não me esqueço dos teus decretos.” (Salmos 119:83)

Odre na fumaça” é uma expressão idiomática hebraica extraída da vivência de uma sociedade agropastoril como era nos tempos bíblicos. O odre era uma bolsa feita de couro de animais, principalmente de caprinos, o qual era usado para armazenar líquidos (água, vinho, leite, azeite).

O emprego desta metáfora pelo salmista é uma referência a todos os convertidos, novos e velhos, que após ingressarem na igreja se estagnaram na fé. Não se esforçam em guardar a água da vida no coração, sendo mais parecidos com uma cisterna rota porque não retém a água que recebe (Jeremias 2:13). Por causa da indolência, tornaram-se imaturos espiritualmente como meninos na fase da infância, deixando de crescer no conhecimento da palavra e da vontade de Deus, não obstante já se sentem crentes “velhos” e religiosos experimentados.

É uma chacoalhada em batizados que não buscam crescimento espiritual.

Todos os cristãos nasceram vocacionados a serem odres, vez que o aperfeiçoamento da fé requer contínuo aprendizado da palavra de Deus, com domínio ao menos dos seis conceitos básicos da doutrina cristã (Hebreus 6:1-2), os quais somente serão apreendidos se houver interesse e esforço para que sejam guardados no coração. Ouvir pregações sem o compromisso de reter consigo aquilo que ouviu é enganar a si mesmo. Infelizmente, há muitos odres nas igrejas precisando ser colocados à prova para aprenderem a guardar a palavra de Deus.

Numa visão geral, vemos um Igreja incrédula, negligente e indiferente às pregações da verdade, tal como no tempo do profeta Isaías, o que foi reverberado pelo apóstolo Paulo: “Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem creu na nossa pregação?” (Romanos 10:16, Isaías 53:1). E a consequência dessa pobreza espiritual no coração dos crentes é a falta do sobrenatural, de milagres e de maravilhas no meio do povo de Deus.

Em nossos dias ver um milagre nas igrejas é coisa rara. Porém a culpa não vem só do despreparo do corpo de Cristo, mas deve ser compartilhada entre a membresia e aqueles que precisam do milagre, pois estes últimos embora desejam ser curados não demonstram viver uma fé inabalável em Cristo. Alguns somente querem o milagre, como se fosse uma mercadoria de gôndola de supermercado. Não se pode pedir milagre com uma fé morta (Tiago 2:17). Todo milagre precisa da fé de quem crê e espera por ele, conforme ensinou Jesus – “E Jesus disse-lhe: Se tu podes crer, tudo é possível ao que crê. E logo o pai do menino, clamando, com lágrimas, disse: Eu creio, Senhor! Ajuda a minha incredulidade.” (Marcos 9:23-24).

Passando adiante, tem-se que a feitura do odre era dividida em 4 (quatro) fases: 1) sacrifício do animal, 2) escarneamento ou esfoliamento, 3) Curtume ou curtição do couro e 4) tempo na fumaça.

1ª Fase: Sacrifício do animal - o animal era degolado e através do corte do pescoço usava-se uma técnica de esfolar ou desprender a carne da pele fazendo sua retirada pela região do pescoço aberta na degola/decapitação. Isso se dava porque não podia haver furo no couro do animal sacrificado. Basicamente cortava-se a cabeça e as patas para remoção do couro sem fazer furo, do contrário o couro não seria aproveitado como odre.

Irmãos, a primeira lição espiritual ensina-nos que o convertido também sofre uma “degola” da mentalidade mundana e pecaminosa. Ele terá que deixar de lado os pensamentos e entendimentos que estavam dentro da cabeça do velho homem para se sujeitar à cabeça do homem espiritual, que é Cristo. O cristão tem que ter a mente de Cristo - “Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo.” (I Co 2:16). Para se ter a mente de Cristo é preciso morrer com Cristo e andar em novidade de vida (Romanos 6:3-4). O estilo de vida cristão recomenda que pensamentos próprios sejam substituídos pelos pensamentos de Deus – “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.” (Gálatas 2:20).

Prova inconfundível de conversão sincera e crescimento espiritual é vista quando os pensamentos próprios do convertido são controlados pelos pensamentos e conselhos de Deus revelados na sua palavra. Figurativamente pode se dizer que a cabeça do velho homem foi degolada, morreram todos seus pensamentos pecaminosos, dando-se lugar à cabeça de Cristo – “Mas quero que saibais que Cristo é a cabeça de todo o homem, e o homem a cabeça da mulher; e Deus a cabeça de Cristo.” (I Co 11:3).

2ª Fase: Descarne ou esfolação - é um ato bem elucidativo da necessidade de mudança de estilo de vida por todos que tiveram o novo nascimento ou nascimento espiritual (João 3:3-7). Tirar toda a carne do couro lembra-nos que a vida espiritual não admite carnalidade nem mesmo resíduos carnais. Se ficasse um pouco de carne grudado no couro isso seria suficiente para apodrecê-lo, atrair moscas, mal cheiro e todo trabalho já realizado estaria perdido. Se permanecer carne no couro ele não pode ser um odre, pois fatalmente perecerá, não terá serventia por falta de limpeza/purificação. A carne é o maior perigo para quem deseja ser um odre cheio de unção espiritual e útil na obra do Senhor.

Normalmente quando um crente é carnal ele não se preocupa em aperfeiçoar ou crescer no conhecimento da verdade e da graça do Senhor Jesus Cristo, porém permanece na mesma visão e comportamento da época que professou sua fé em Cristo. Torna-se um menino em Cristo - E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo.” (I Co 3:1, Efésios 4:14) -, pois continua bebendo leite e sendo imaturo nas coisas espirituais, ainda que seja assíduo frequentador de igreja. Aliás, todo crente carnal é religioso, ritualístico, porém raso nas necessárias experiências espirituais que sustentam o crescimento da fé. Fora da igreja, ele continua fazendo coisas e indo a lugares que agradam a vida ímpia, sem compromisso com a disciplina da fé cristã. Não há mudança substancial no modo de viver, não há disciplina pessoal na separação entre o que é santo e o que é impuro, sendo que algumas coisas são feitas às escondidas, como se Aquele que vê e sabe todas as coisas pudesse ser enganado (Sl 139).

Entrementes, a carnalidade é um perigo espiritual que abrange todos os membros ou igrejados no Corpo de Cristo. Homens experientes e até líderes religiosos podem ser infectados e contaminados pelo mal da velha natureza carnal se não permanecerem em contínua santificação e fortalecimento espiritual. A queda espiritual é um risco diário – Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe que não caia.” (I Co 10:12). A queda de Adão e Eva mostra que Satanás age na carne para fazer os homens caírem em pecado e perderem a comunhão com Deus. Eles tinham liberdade para comerem de todas as árvores do jardim do Éden, exceto da árvore do conhecimento (Gênesis 2:17), porém Eva se deixou envolver pelo engano de Satanás. Assim foi a gênese do primeiro pecado na Bíblia e de todos os demais. Está dito que “viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos [concupiscência dos olhos], e árvore desejável para dar entendimento (soberba da vida]; tomou do seu fruto, e comeu [conpiscência da carne], e deu também a seu marido, e ele comeu com ela.” (Gênesis 3:6). A concupiscência ou desejo descontrolado do homem dá à luz ao pecado toda vez que ele atende a vontade pecaminosa da carne (Tiago 1:14-15). Quem permanece na verdade da palavra ora vai ouvir de Deus “sim” ora vai ouvir “não”, justamente para não cair em pecado e sair da sua presença.

Vejam a vida de Davi. Ele era homem justo e profeta de Deus. A carnalidade o atingiu com sua tríplice força: concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida (I João 2:16). Numa certa tarde Davi viu do terraço Bate-Seba tomando banho e a mesma era “mulher mui formosa à vista” – concupiscência dos olhos (II Sm 11:2). Davi, sendo rei de Israel, mandou que a trouxessem até ele – “Então enviou Davi mensageiros, e mandou trazê-la” – soberba da vida (II Sm 11:4), pois usou sua autoridade de rei de forma abusiva e ilícita porque sabia que Bate-Seba era mulher de Urias. E, ao final “ele se deitou com ela” – concupiscência da carne (II Sm 11:4), atendeu seus desejos sexuais pervertidos e consumou o pecado de adultério. A tradição rabínica diz que por causa do pecado de adultério com Bate-Seba, o rei Davi ficou sete anos afastado da presença de Deus. O relacionamento de Davi com Deus foi rompido pela velha natureza carnal que estava adormecida dentro dele, isso depois de ter vivido grandes experiências espirituais com o Senhor. Por causa disso Davi viu a espada destruir tragicamente a vida de seus filhos e a paz familiar.

Pois bem. Antes de passar pela fase do curtume, o couro era salgado visando sua preservação, assepsia que evitava a decomposição ou o apodrecimento. O sal além de dar sabor também tem a propriedade de preservar os alimentos, evitando a podridão. Essa prática era comum até pouco tempo atrás, antes do advento da eletrificação e da refrigeração dos alimentos. Exemplo disso é a carne de sol ou charque e do bacalhau, tradicionalmente conservadas com sal. Jesus disse que todo cristão é sal da terra e luz do mundo (Mateus 5:13). São condições da vida cristã: quem as têm é cristão, quem não as têm não é. Na função de sal, cada cristão deve agir para evitar a contaminação e a podridão causadas pelo pecado, bem como fazer cessar a corrupção moral que ele provoca, redimensionando o valor da vida neste mundo para todos que desconhecem uma existência saudável e feliz com base na palavra de Deus. Falando do agir cristão como sal, o apóstolo Paulo diz que nossas conversas precisam ser temperadas com sal para serem úteis e proveitosas no combate à podridão moral causada pelo pecado - “A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para que saibais como vos convém responder a cada um.” (Colossenses 4:6).

3ª Fase: Curtume – depois da limpeza para retirada dos resquícios de carne, o couro deve ser curtido para que torne resistente e durável. Neste processo de imersão na água contendo o tanino remove-se do couro os pelos, a gordura e outras impurezas visíveis. Nos tempos bíblicos a curtição para dar resistência ao couro era feita com o tanino da casca de carvalho e da acácia. A acácia é a mesma madeira com que foi construída a arca da aliança que guardava as duas tábuas do testemunho ou a palavra de Deus (Êxodo 25:10) no meio da nação de Israel. Você acha que é coincidência que as duas Tábuas do Testemunho com os Dez Mandamentos, colocadas no Lugar Santíssimo, estavam guardadas dentro de um móvel feito da madeira de acácia? Não é. O ensinamento geral é que a palavra de Deus deve ser guardada em lugar seguro, resistente e santo, não sujeito a fraqueza nem brechas. Assim deve ser o coração de cada odre que quiser guardar fielmente a palavra de Deus, agora, não mais curtido pelo tanino da acácia ou pela própria madeira resistente, porém revestido por uma resistência ainda maior, que é o selo do Espírito Santo (Efésios 2:13).

Concluídas as fases do curtimento para se evitar que apodrecesse, o couro era submetido à última etapa ou teste final de sua preparação para se tornar um odre útil e disponível para uso. Esta última fase é chamada de “tempo da fumaça” ou “tempo de prova” – Pois estou como odre na fumaça;” (Sl 119:83a) -, conquanto antes de ser utilizado como recipiente de líquidos os odres confeccionados (já costurados) com o couro curtido eram colocados estrategicamente próximos a um fogão à lenha para que o calor e a fumaça, juntos, agissem nele para quebrar a rigidez, a inflexibilidade e remover os derradeiros sinais da carne que abrigou por um longo tempo.

4ª fase: tempo da fumaça – O tempo que o odre passava na fumaça tinha três objetivos: A) espantar moscas, B) tirar o mau cheiro e C) amaciamento das fibras interiores.

1º Objetivo: Espantar moscas – o couro atraía moscas porque ainda estava úmido em virtude do curtume e com resíduos de carne e gordura não removidos, mau cheiro que as atraía à procura de um local para depositarem seus ovos, os quais se transformam em larvas que aceleram o processo de apodrecimento ou decomposição do material orgânico. Se um odre atrai moscas é porque nele há cheiro de carne podre ou que pode estar indo à podridão, lembrando-nos que o pecado fede como um lamaçal fedorento. Os judeus chamavam Satanás de Baal Zebub ou Belzebul, traduzido literalmente como “senhor das moscas”. Logo, biblicamente moscas representam demônios, atraídos por sujeira espiritual indicativa da presença de pecado. O mau cheiro do pecado atrai demônios. Jesus foi acusado pelos fariseus de expulsar demônios por Belzebu (Mateus 12:24-27, Lucas 11:14-15), blasfêmia com que muitos de seus discípulos continuam sendo atacados covardemente por ignorantes e fariseus.

De conseguinte, se o odre foi para a fumaça, uma das hipóteses de sua provação é que nele havia uma carnalidade pecaminosa precisando ser extirpada para sua vida ser liberta da ação de demônios. Na quarta praga do Egito Deus lembrou à casa de Faraó e a todos os egípcios que ali era uma terra onde abundava pecado e demônios, por isso lhes enviou enxames de moscas (Êxodo 8:20-32). Portanto, têm pessoas, casas e nações inteiras que precisam ficar sob a fumaça da glória de Deus para se libertarem de ações demoníacas. Quando uma nação é santa os crimes diminuem assustadoramente, os homens largam vícios e até locais de bebedeiras e prostituições são fechados, pois não havendo brechas ou lamaçais os demônios perdem legalidade.

 2º Objetivo: Tirar o mau cheiro - Quem vive no pecado é comparado espiritualmente a alguém que habita num lodo ou charco. Casas ocupadas por demônios exalam cheiro fétido, algo parecido com o cheiro de repolho podre. Há homens e mulheres santos que enfrentam batalhas espirituais e sentem pelo olfato a presença de demônios no ambiente. Neste aspecto, para melhor entendimento dessas experiências espirituais, recomenda-se a leitura do livro “Porcos na sala” de Frank Hammond e Ida Mae Hammond. 

3º Objetivo: Amaciamento das fibras interiores – o curtume fortaleceu e deu resistência ao couro do odre, contudo enrijeceu suas fibras. Porém, um odre não pode ser duro e inflexível, do contrário não suportará a pressão que virá sobre ele. Se Deus não usa odre endurecido, logicamente que ele precisa ser transformado - “Nem se deita vinho novo em odres velhos; aliás rompem-se os odres, e entorna-se o vinho, e os odres estragam-se; mas deita-se vinho novo em odres novos, e assim ambos se conservam.” (Mateus 9:17). A mudança do homem interior opera-se pelo Espírito Santo, de forma silenciosa e invisível aos olhos humanos, igualmente silencioso e invisível é o germinar da semente lançada na terra (Marcos 4:26-29). Esse tratamento sobrenatural do homem interior pode ser um tempo de tristeza, choro, aflições e de disciplina. Entretanto, sua permanência na fumaça faz com que recupere a maciez e a flexibilidade de suas fibras pela ação do calor. O calor do Espírito Santo habitando dentro do homem é que retira o cheiro da carne ou da velha natureza que outrora dominava a vida do convertido e ainda lhe amolece e sensibiliza a alma às verdades espirituais.

Cristão “cabeça dura”, com lembranças recorrentes de fatos passados, ira, falta de perdão e que está sempre precisando de cabresto para obedecer a palavra de Deus, é comparado a animais que empacam (Salmos 32:9), precisa do agir do fogo do Espírito Santo na transformação do coração de pedra para um coração de carne. O coração de pedra é indiferente, orgulhoso, contencioso, cheio de teimosia e resistente ao cumprimento da vontade de Deus, pelo que precisa ser trocado por um coração de carne, símbolo de quem é disposto a obedecer com humildade e sujeição a todo conselho divino. Um coração de pedra não pode ser vivificado pelo Espírito Santo, pois não tem vida e jamais terá vida espiritual por ser duro e insensível – “E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis.” (Ezequiel 36:26-27:19).

Mudar um coração é tarefa do Espírito Santo de Deus, no processo de santificação pessoal da alma de cada cristão. Só ele pode fazer essa mudança espiritual na vida de um convertido que tem dificuldade em viver o que ouve da palavra de Deus. Sem essa transformação interior não há salvação nem vida eterna. Oh glória, que venha mais fumaça sobre seu povo, pois sabemos que o Senhor disciplina e “amacia” aqueles que recebe como filhos (Hebreus 12:6).

Também é certo que a fumaça enegrece o odre, não o deixa com boa aparência, incomoda, porém fortalece principalmente sua estrutura interior. A fumaça e sua fuligem manifesta o sofrimento exterior dos cristãos durante as provas, abatimento e tristeza que transparecem até na falta de brilho dos olhos (Salmos 38:10). No entanto, toda humilhação, angústia e inquietação jamais serão inúteis espiritualmente, pois o trabalho divino no interior da alma sempre será ricamente proveitoso. Percebe-se que a fumaça é um tempo de prova sob o controle de Deus, contudo temporário porque prova alguma dura para sempre, verdadeiro alívio em saber que as adversidades como doenças, perseguições, traições, injúrias ou perdas são temporárias na vida dos santos por causa da misericórdia de Deus.

Entrementes, a aparência ou visual exterior do homem santo no período da fumaça condiz mais com a humildade, o desprendimento e o amadurecimento interior que possui quem ingressa em novo estado espiritual. A beleza física é superada pela beleza dos valores espirituais que passam a moldar o espírito e a alma do cristão durante as aflições da fumaça. A mudança interior é produto das aflições, máxime porque o odre, mesmo sofrendo nas adversidades, não se esqueceu da palavra de Deus – “Desfalece a minha alma pela tua salvação, mas espero na tua palavra.” (Salmos 119:81). Vê-se que um dos efeitos das aflições no coração dos cristãos é o aumento na certeza e na esperança das promessas divinas, especialmente porque ao se descortinar a finitude da vida nas reflexões do sofrimento enfrentado, resplandece-lhes a glória da salvação eterna. Isso sempre será um ganho imensurável, em pessoas e ambientes, por causa da mudança da mentalidade terrena para a espiritual. Ou seja, as aflições do mundo tonificam a vontade de viver espiritualmente e da transcendência que há na promessa de vida eterna. Claro está que o cristão passa por aflições. Isso fica evidente quando o salmista diz para Deus que apesar de estar atribulado como odre na fumaça, “contudo não me esqueço dos teus estatutos.”. A firmeza da fé não permite que circunstâncias momentâneas abalem nossa confiança na verdade divina e na promessa e esperança na vida eterna.

O versículo do salmo em análise retrata a vida de um homem que estava sob a ação da fumaça e do seu calor, e mesmo vendo sua alma e seus olhos desfalecidos pelas tribulações e aflições ele não se esqueceu da palavra de Deus nem perdeu a esperança nas promessas divinas para sua vida. Isso traz clara lição: Não provamos nossa fidelidade a Deus no tempo de bonança, onde tudo está dando certo, mas em tempo de dificuldades, de provações e de humilhação – “e tereis uma tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.” (Apocalipse 2:10). A fé dos justos não pode ser destruída nem abalada por causa de sofrimentos, ainda que as circunstâncias digam que os perigos ou inimigos enfrentados sejam poderosos e invencíveis aos olhos humanos (Salmos 11:1-3). Basta perseverar na fé que o socorro virá do Senhor, Criador do céu e da terra, para aquilo que for necessário para nos fazer vencedores na peleja.

O salmista estava sofrendo perseguições, aflito diante dos inimigos, olhos esmorecidos, correndo risco de morte e de ir para a cova, exausto fisicamente e sentindo-se desprovido da consolação de Deus. O coração quebrantado entende que a dor é um processo de cura, não o fim da sua vida nem um castigo sem propósito, mas um tempo de provação para se receber bênçãos e autoridade espiritual por aqueles que são perseverantes na travessia de deserto e de vale. É nesse cenário que ele comparou sua vida momentânea com um odre na fumaça, pois o tempo na fumaça não dura para sempre, de modo que o salmista não perdeu a confiança na verdade, na fidelidade, na misericórdia e no poder dos preceitos e dos mandamentos de Deus. É uma lição para que saibamos suportar o sofrimento, as aflições, as perseguições e as injustiças do mundo, pois são etapas do fortalecimento interior, do espírito, da fé sincera e fiel.

Estar debaixo da fumaça significa sujeição ao propósito de Deus, tempo de transformação interior, sofrível e silenciosa - “Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada.” (Rm 8:18). A provação do povo de Deus é algo sério e necessário, vez que as tribulações (no exterior) e as aflições (no interior) embora amargas e angustiantes fazem o alinhamento dos pensamentos e sentimentos dos justos com o propósito celestial para suas vidas. É o tempo da presença da glória de Deus, que por várias se manifestou ao povo de Israel, como uma fumaça que enchia o tabernáculo e o templo, por isso também é tempo de cura da alma e do espírito do convertido que deseja ser odre na mão do Senhor.

Alongando-se, sabe-se que a fumaça produz perseguições, humilhações, enfermidades e privações. Ali exposto, o odre esfumaçado perdia sua aparência natural e ficava enrugado. Isso tudo foi representado pelo salmista na negritude ou fuligem presente na fumaça que o atingia como as ondas do mar atingem diuturnamente as rochas onde se quebram. Ao mesmo tempo que a negritude da fumaça mudava o aspecto exterior do odre, outra mudança mais importante ocorria no seu interior provocada pelo calor invisível dissipado juntamente com a fumaça, mudando sua estrutura fibrosa e aprimorando a calafetação interna, transformação vital para mantê-lo como um recipiente resistente e apropriado a armazenar líquidos, bem como o calor fazia um assepsia final e refinada nas paredes interiores do odre, neutralizando os odores. Tudo que o calor fazia no interior do odre era invisível e imperceptível aos olhos humanos, porém de valor imprescindível à aprovação do odre.

Verifica-se ser no interior do odre que as aflições atacam o sentimento, o pensamento e a vontade do odre, local onde são eliminadas impurezas, tapadas brechas espirituais e desarraigadas coisas da velha natureza carnal. As transformações interiores servem ao amadurecimento espiritual dos odres, dando-lhe crescimento na graça e na verdade de Cristo.

O tema odre na fumaça envolve os vs. 81 a 88 (Salmos 119:81-88). O salmista inicia falando da sua aflição e da esperança na palavra de Deus e conclui reafirmando sua esperança na palavra de Deus – “Vivifica-me segundo a tua benignidade; assim guardarei o testemunho da tua boca.” (Sl 119:88). Portanto, um odre aprovado guarda um tesouro inesgotável e valioso dentro dele: a palavra de Deus, fonte da vida eterna.

Como saber se um odre foi aprovado? Havia um teste. Ele era enchido com água, e se a água não vazasse estava pronto e podia ser usado. Isso ocorre quando o homem e a mulher santos ouvem e guardam a palavra de Deus no coração, passando a viver pelo que ela diz e estão aptos a matar a sede de outras almas que precisam da salvação que há em Cristo Jesus. O odre aprovado encontra o caminho da fé perfeita, consistente neste ciclo: a palavra de Deus no coração gera fé (Rm 10:17), fé gera temor, temor gera obediência, obediência gera santidade, santidade gera proximidade com Deus, fonte de todas as bênçãos. Todo aquele que chega ao final da provação passa a ter mais intimidade com Deus, como ocorreu com Jacó ao término do período de fumaça ou prova em Padã Arã, que durou vinte anos (Gênesis 31:3). Muitos vão dizer: “nossa quanto tempo Jacó ficou na fumaça, eu não suportaria!”. Todavia, vejam a grandeza do propósito celestial que Deus tinha para aquele odre. Jacó se tornou uma nação forte conforme prenunciado pela profecia (Gênesis 25:23), o povo escolhido de Deus e da sua descendência nasceu o Jesus Cristo, o Filho de Deus, segundo a carne. Não desamine, Deus também tem um grande propósito para sua vida!

Senhor Deus, tu conheces nossa estrutura interior e todas suas fraquezas, ajuda-nos a guardar no coração sua palavra como um odre aprovado, concedendo a seu povo os dons espirituais disponíveis e o fruto do Espírito do Santo, ainda que tenhamos que passar pelo tempo da fumaça.

*© Texto bíblico: ACF – SBTB