Odre na fumaça: um tipo de provação especial
“Já me assemelho a um odre na fumaça;
contudo, não me esqueço dos teus decretos.” (Salmos 119:83)
“Odre na fumaça” é uma expressão
idiomática hebraica extraída da vivência de uma sociedade agropastoril como era
nos tempos bíblicos. O odre era uma bolsa feita de couro de animais, principalmente
de caprinos, o qual era usado para armazenar líquidos (água, vinho, leite,
azeite).
O
emprego desta metáfora pelo salmista é uma referência a todos os convertidos,
novos e velhos, que após ingressarem na igreja se estagnaram na fé. Não se
esforçam em guardar a água da vida no coração, sendo mais parecidos com uma
cisterna rota porque não retém a água que recebe (Jeremias 2:13). Por causa da
indolência, tornaram-se imaturos espiritualmente como meninos na fase da
infância, deixando de crescer no conhecimento da palavra e da vontade de Deus,
não obstante já se sentem crentes “velhos”
e religiosos experimentados.
É uma
chacoalhada em batizados que não buscam crescimento espiritual.
Todos
os cristãos nasceram vocacionados a serem odres, vez que o aperfeiçoamento da
fé requer contínuo aprendizado da palavra de Deus, com domínio ao menos dos
seis conceitos básicos da doutrina cristã (Hebreus 6:1-2), os quais somente serão
apreendidos se houver interesse e esforço para que sejam guardados no coração.
Ouvir pregações sem o compromisso de reter consigo aquilo que ouviu é enganar a
si mesmo. Infelizmente, há muitos odres nas igrejas precisando ser colocados à
prova para aprenderem a guardar a palavra de Deus.
Numa
visão geral, vemos um Igreja incrédula, negligente e indiferente às pregações
da verdade, tal como no tempo do profeta Isaías, o que foi reverberado pelo
apóstolo Paulo: “Mas nem todos têm
obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem creu na nossa pregação?”
(Romanos 10:16, Isaías 53:1). E a consequência dessa pobreza espiritual no coração dos
crentes é a falta do sobrenatural, de milagres e de maravilhas no meio do povo
de Deus.
Em
nossos dias ver um milagre nas igrejas é coisa rara. Porém a culpa não vem só do
despreparo do corpo de Cristo, mas deve ser compartilhada entre a membresia e
aqueles que precisam do milagre, pois estes últimos embora desejam ser curados
não demonstram viver uma fé inabalável em Cristo. Alguns somente querem o
milagre, como se fosse uma mercadoria de gôndola de supermercado. Não se pode
pedir milagre com uma fé morta (Tiago 2:17). Todo milagre precisa da fé de quem crê
e espera por ele, conforme ensinou Jesus – “E
Jesus disse-lhe: Se tu podes crer, tudo é possível ao que crê. E logo o pai do
menino, clamando, com lágrimas, disse: Eu creio, Senhor! Ajuda a minha
incredulidade.” (Marcos 9:23-24).
Passando
adiante, tem-se que a feitura do odre era dividida em 4 (quatro) fases: 1)
sacrifício do animal, 2) escarneamento ou esfoliamento, 3) Curtume ou curtição
do couro e 4) tempo na fumaça.
1ª Fase: Sacrifício do animal -
o animal era degolado e através do corte do pescoço usava-se uma técnica de
esfolar ou desprender a carne da pele fazendo sua retirada pela região do
pescoço aberta na degola/decapitação. Isso se dava porque não podia haver furo
no couro do animal sacrificado. Basicamente cortava-se a cabeça e as patas para
remoção do couro sem fazer furo, do contrário o couro não seria aproveitado
como odre.
Irmãos,
a primeira lição espiritual ensina-nos que o convertido também sofre uma
“degola” da mentalidade mundana e pecaminosa. Ele terá que deixar de lado os
pensamentos e entendimentos que estavam dentro da cabeça do velho homem para se
sujeitar à cabeça do homem espiritual, que é Cristo. O cristão tem que ter a
mente de Cristo - “Porque, quem conheceu
a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo.”
(I Co 2:16). Para se ter a mente de Cristo é preciso morrer com Cristo e andar
em novidade de vida (Romanos 6:3-4). O estilo de vida cristão recomenda que pensamentos
próprios sejam substituídos pelos pensamentos de Deus – “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive
em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o
qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.” (Gálatas 2:20).
Prova
inconfundível de conversão sincera e crescimento espiritual é vista quando os
pensamentos próprios do convertido são controlados pelos pensamentos e
conselhos de Deus revelados na sua palavra. Figurativamente pode se dizer que a
cabeça do velho homem foi degolada, morreram todos seus pensamentos
pecaminosos, dando-se lugar à cabeça de Cristo – “Mas quero que saibais que Cristo é a cabeça de todo o homem, e o homem
a cabeça da mulher; e Deus a cabeça de Cristo.” (I Co 11:3).
2ª Fase: Descarne ou esfolação
- é um ato bem elucidativo da necessidade de mudança de estilo de vida por
todos que tiveram o novo nascimento ou nascimento espiritual (João 3:3-7). Tirar
toda a carne do couro lembra-nos que a vida espiritual não admite carnalidade
nem mesmo resíduos carnais. Se ficasse um pouco de carne grudado no couro isso
seria suficiente para apodrecê-lo, atrair moscas, mal cheiro e todo trabalho já
realizado estaria perdido. Se permanecer carne no couro ele não pode ser um
odre, pois fatalmente perecerá, não terá serventia por falta de
limpeza/purificação. A carne é o maior perigo para quem deseja ser um odre
cheio de unção espiritual e útil na obra do Senhor.
Normalmente
quando um crente é carnal ele não se preocupa em aperfeiçoar ou crescer no conhecimento da verdade e
da graça do Senhor Jesus Cristo, porém permanece na mesma visão e comportamento
da época que professou sua fé em
Cristo. Torna-se um menino em Cristo - “E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a
carnais, como a meninos em Cristo.” (I Co 3:1, Efésios 4:14) -, pois continua bebendo leite e sendo imaturo
nas coisas espirituais, ainda que seja assíduo frequentador de igreja. Aliás,
todo crente carnal é religioso, ritualístico, porém raso nas necessárias
experiências espirituais que sustentam o crescimento da fé. Fora da igreja, ele
continua fazendo coisas e indo a lugares que agradam a vida ímpia, sem
compromisso com a disciplina da fé cristã. Não há mudança substancial no modo
de viver, não há disciplina pessoal na separação entre o que é santo e o que é
impuro, sendo que algumas coisas são feitas às escondidas, como se Aquele que
vê e sabe todas as coisas pudesse ser enganado (Sl 139).
Entrementes, a carnalidade é um perigo
espiritual que abrange todos os membros ou igrejados no Corpo de Cristo. Homens
experientes e até líderes religiosos podem ser infectados e contaminados pelo
mal da velha natureza carnal se não permanecerem em contínua santificação e
fortalecimento espiritual. A queda espiritual é um risco diário – “Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe
que não caia.” (I Co 10:12). A
queda de Adão e Eva mostra que Satanás age na carne para fazer os homens caírem
em pecado e perderem a comunhão com Deus. Eles tinham liberdade para comerem de
todas as árvores do jardim do Éden, exceto da árvore do conhecimento (Gênesis 2:17),
porém Eva se deixou envolver pelo engano de Satanás. Assim foi a gênese do
primeiro pecado na Bíblia e de todos os demais. Está dito que “viu a mulher que aquela árvore era boa para
se comer, e agradável aos olhos
[concupiscência dos olhos], e árvore
desejável para dar entendimento (soberba da vida]; tomou do seu fruto, e comeu [conpiscência da carne], e deu também a seu marido, e ele comeu com
ela.” (Gênesis 3:6). A concupiscência ou desejo descontrolado do homem dá à luz
ao pecado toda vez que ele atende a vontade pecaminosa da carne (Tiago 1:14-15).
Quem permanece na verdade da palavra ora vai ouvir de Deus “sim” ora vai ouvir “não”, justamente
para não cair em pecado e sair da sua presença.
Vejam a vida de Davi. Ele era homem justo e
profeta de Deus. A carnalidade o atingiu com sua tríplice força: concupiscência
da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida (I João 2:16). Numa certa
tarde Davi viu do terraço Bate-Seba tomando banho e a mesma era “mulher mui formosa à vista” –
concupiscência dos olhos (II Sm 11:2). Davi, sendo rei de Israel, mandou que a
trouxessem até ele – “Então enviou Davi
mensageiros, e mandou trazê-la” – soberba da vida (II Sm 11:4), pois usou
sua autoridade de rei de forma abusiva e ilícita porque sabia que Bate-Seba era
mulher de Urias. E, ao final “ele se
deitou com ela” – concupiscência da carne (II Sm 11:4), atendeu seus
desejos sexuais pervertidos e consumou o pecado de adultério. A tradição
rabínica diz que por causa do pecado de adultério com Bate-Seba, o rei Davi
ficou sete anos afastado da presença de Deus. O relacionamento de Davi com Deus
foi rompido pela velha natureza carnal que estava adormecida dentro dele, isso depois
de ter vivido grandes experiências espirituais com o Senhor. Por causa disso Davi
viu a espada destruir tragicamente a vida de seus filhos e a paz familiar.
Pois bem. Antes de passar pela fase do curtume,
o couro era salgado visando sua preservação, assepsia que evitava a
decomposição ou o apodrecimento. O sal além de dar sabor também tem a
propriedade de preservar os alimentos, evitando a podridão. Essa prática era
comum até pouco tempo atrás, antes do advento da eletrificação e da
refrigeração dos alimentos. Exemplo disso é a carne de sol ou charque e do
bacalhau, tradicionalmente conservadas com sal. Jesus disse que todo cristão é
sal da terra e luz do mundo (Mateus 5:13). São condições da vida cristã: quem as têm
é cristão, quem não as têm não é. Na função de sal, cada cristão deve agir para
evitar a contaminação e a podridão causadas pelo pecado, bem como fazer cessar
a corrupção moral que ele provoca, redimensionando o valor da vida neste mundo
para todos que desconhecem uma existência saudável e feliz com base na palavra
de Deus. Falando do agir cristão como sal, o apóstolo Paulo diz que
nossas conversas precisam ser temperadas com sal para serem úteis e proveitosas
no combate à podridão moral causada pelo pecado - “A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para que
saibais como vos convém responder a cada um.” (Colossenses 4:6).
3ª
Fase: Curtume – depois da limpeza para retirada dos resquícios de carne, o
couro deve ser curtido para que torne resistente e durável. Neste processo de
imersão na água contendo o tanino remove-se do couro os pelos, a gordura e
outras impurezas visíveis. Nos tempos bíblicos a curtição para dar resistência
ao couro era feita com o tanino da casca de carvalho e da acácia. A acácia é a
mesma madeira com que foi construída a arca da aliança que guardava as duas
tábuas do testemunho ou a palavra de Deus (Êxodo 25:10) no meio da nação de
Israel. Você acha que é coincidência que as duas Tábuas do Testemunho com os
Dez Mandamentos, colocadas no Lugar Santíssimo, estavam guardadas dentro de um
móvel feito da madeira de acácia? Não é. O ensinamento geral é que a palavra de
Deus deve ser guardada em lugar seguro, resistente e santo, não sujeito a
fraqueza nem brechas. Assim deve ser o coração de cada odre que quiser guardar
fielmente a palavra de Deus, agora, não mais curtido pelo tanino da acácia ou
pela própria madeira resistente, porém revestido por uma resistência ainda
maior, que é o selo do Espírito Santo (Efésios 2:13).
Concluídas as fases do curtimento para se evitar
que apodrecesse, o couro era submetido à última etapa ou teste final de sua
preparação para se tornar um odre útil e disponível para uso. Esta última fase
é chamada de “tempo da fumaça” ou “tempo de prova” – “Pois estou como odre na fumaça;” (Sl
119:83a) -, conquanto antes
de ser utilizado como recipiente de líquidos os odres confeccionados (já
costurados) com o couro curtido eram colocados estrategicamente próximos a um
fogão à lenha para que o calor e a fumaça, juntos, agissem nele para quebrar a
rigidez, a inflexibilidade e remover os derradeiros sinais da carne que abrigou
por um longo tempo.
4ª fase: tempo da fumaça – O tempo
que o odre passava na fumaça tinha três objetivos: A) espantar moscas, B) tirar
o mau cheiro e C) amaciamento das fibras interiores.
1º Objetivo: Espantar moscas –
o couro atraía moscas porque ainda estava úmido em virtude do curtume e com
resíduos de carne e gordura não removidos, mau cheiro que as atraía à procura
de um local para depositarem seus ovos, os quais se transformam em larvas que aceleram
o processo de apodrecimento ou decomposição do material orgânico. Se um odre
atrai moscas é porque nele há cheiro de carne podre ou que pode estar indo à
podridão, lembrando-nos que o pecado fede como um lamaçal fedorento. Os judeus
chamavam Satanás de Baal Zebub ou Belzebul, traduzido literalmente como “senhor das moscas”. Logo, biblicamente
moscas representam demônios, atraídos por sujeira espiritual indicativa da
presença de pecado. O mau cheiro do pecado atrai demônios. Jesus foi acusado
pelos fariseus de expulsar demônios por Belzebu (Mateus 12:24-27, Lucas 11:14-15),
blasfêmia com que muitos de seus discípulos continuam sendo atacados
covardemente por ignorantes e fariseus.
De
conseguinte, se o odre foi para a fumaça, uma das hipóteses de sua provação é
que nele havia uma carnalidade pecaminosa precisando ser extirpada para sua vida
ser liberta da ação de demônios. Na quarta praga do Egito Deus lembrou à casa
de Faraó e a todos os egípcios que ali era uma terra onde abundava pecado e
demônios, por isso lhes enviou enxames de moscas (Êxodo 8:20-32). Portanto, têm
pessoas, casas e nações inteiras que precisam ficar sob a fumaça da glória de
Deus para se libertarem de ações demoníacas. Quando uma nação é santa os crimes
diminuem assustadoramente, os homens largam vícios e até locais de bebedeiras e
prostituições são fechados, pois não havendo brechas ou lamaçais os demônios
perdem legalidade.
2º Objetivo: Tirar o mau cheiro - Quem vive no
pecado é comparado espiritualmente a alguém que habita num lodo ou charco.
Casas ocupadas por demônios exalam cheiro fétido, algo parecido com o cheiro de
repolho podre. Há homens e mulheres santos que enfrentam batalhas espirituais e
sentem pelo olfato a presença de demônios no ambiente. Neste aspecto, para
melhor entendimento dessas experiências espirituais, recomenda-se a leitura do
livro “Porcos na sala” de Frank
Hammond e Ida Mae Hammond.
3º Objetivo: Amaciamento das
fibras interiores – o curtume fortaleceu e deu resistência ao couro do odre,
contudo enrijeceu suas fibras. Porém, um odre não pode ser duro e inflexível,
do contrário não suportará a pressão que virá sobre ele. Se Deus não usa odre
endurecido, logicamente que ele precisa ser transformado - “Nem se deita vinho novo em odres velhos;
aliás rompem-se os odres, e entorna-se o vinho, e os odres estragam-se; mas
deita-se vinho novo em odres novos, e assim ambos se conservam.” (Mateus 9:17).
A mudança do homem interior opera-se pelo Espírito Santo, de forma silenciosa e
invisível aos olhos humanos, igualmente silencioso e invisível é o germinar da
semente lançada na terra (Marcos 4:26-29). Esse tratamento sobrenatural do homem
interior pode ser um tempo de tristeza, choro, aflições e de disciplina.
Entretanto, sua permanência na fumaça faz com que recupere a maciez e a
flexibilidade de suas fibras pela ação do calor. O calor do Espírito Santo
habitando dentro do homem é que retira o cheiro da carne ou da velha natureza
que outrora dominava a vida do convertido e ainda lhe amolece e sensibiliza a
alma às verdades espirituais.
Cristão
“cabeça dura”, com lembranças
recorrentes de fatos passados, ira, falta de perdão e que está sempre
precisando de cabresto para obedecer a palavra de Deus, é comparado a animais
que empacam (Salmos 32:9), precisa do agir do fogo do Espírito Santo na
transformação do coração de pedra para um coração de carne. O coração de pedra
é indiferente, orgulhoso, contencioso, cheio de teimosia e resistente ao
cumprimento da vontade de Deus, pelo que precisa ser trocado por um coração de
carne, símbolo de quem é disposto a obedecer com humildade e sujeição a todo
conselho divino. Um coração de pedra não pode ser vivificado pelo Espírito
Santo, pois não tem vida e jamais terá vida espiritual por ser duro e insensível
– “E dar-vos-ei um coração novo, e porei
dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e
vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei
que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis.”
(Ezequiel 36:26-27:19).
Mudar
um coração é tarefa do Espírito Santo de Deus, no processo de santificação
pessoal da alma de cada cristão. Só ele pode fazer essa mudança espiritual na
vida de um convertido que tem dificuldade em viver o que ouve da palavra de
Deus. Sem essa transformação interior não há salvação nem vida eterna. Oh
glória, que venha mais fumaça sobre seu povo, pois sabemos que o Senhor
disciplina e “amacia” aqueles que
recebe como filhos (Hebreus 12:6).
Também
é certo que a fumaça enegrece o odre, não o deixa com boa aparência, incomoda,
porém fortalece principalmente sua estrutura interior. A fumaça e sua fuligem manifesta
o sofrimento exterior dos cristãos durante as provas, abatimento e tristeza que
transparecem até na falta de brilho dos olhos (Salmos 38:10). No entanto, toda
humilhação, angústia e inquietação jamais serão inúteis espiritualmente, pois o
trabalho divino no interior da alma sempre será ricamente proveitoso. Percebe-se
que a fumaça é um tempo de prova sob o controle de Deus, contudo temporário
porque prova alguma dura para sempre, verdadeiro alívio em saber que as
adversidades como doenças, perseguições, traições, injúrias ou perdas são temporárias
na vida dos santos por causa da misericórdia de Deus.
Entrementes,
a aparência ou visual exterior do homem santo no período da fumaça condiz mais com
a humildade, o desprendimento e o amadurecimento interior que possui quem
ingressa em novo estado espiritual. A beleza física é superada pela beleza dos
valores espirituais que passam a moldar o espírito e a alma do cristão durante
as aflições da fumaça. A mudança interior é produto das aflições, máxime porque
o odre, mesmo sofrendo nas adversidades, não se esqueceu da palavra de Deus – “Desfalece a minha alma pela tua salvação,
mas espero na tua palavra.” (Salmos 119:81). Vê-se que um dos efeitos das
aflições no coração dos cristãos é o aumento na certeza e na esperança das
promessas divinas, especialmente porque ao se descortinar a finitude da vida
nas reflexões do sofrimento enfrentado, resplandece-lhes a glória da salvação
eterna. Isso sempre será um ganho imensurável, em pessoas e ambientes, por
causa da mudança da mentalidade terrena para a espiritual. Ou seja, as aflições
do mundo tonificam a vontade de viver espiritualmente e da transcendência que
há na promessa de vida eterna. Claro está que o cristão passa por aflições.
Isso fica evidente quando o salmista diz para Deus que apesar de estar atribulado
como odre na fumaça, “contudo não me
esqueço dos teus estatutos.”. A firmeza da fé não permite que circunstâncias
momentâneas abalem nossa confiança na verdade divina e na promessa e esperança
na vida eterna.
O
versículo do salmo em análise retrata a vida de um homem que estava sob a ação
da fumaça e do seu calor, e mesmo vendo sua alma e seus olhos desfalecidos
pelas tribulações e aflições ele não se esqueceu da palavra de Deus nem perdeu
a esperança nas promessas divinas para sua vida. Isso traz clara lição: Não
provamos nossa fidelidade a Deus no tempo de bonança, onde tudo está dando
certo, mas em tempo de dificuldades, de provações e de humilhação – “e tereis uma tribulação de dez dias. Sê fiel
até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.” (Apocalipse 2:10). A fé dos justos não
pode ser destruída nem abalada por causa de sofrimentos, ainda que as
circunstâncias digam que os perigos ou inimigos enfrentados sejam poderosos e
invencíveis aos olhos humanos (Salmos 11:1-3). Basta perseverar na fé que o socorro
virá do Senhor, Criador do céu e da terra, para aquilo que for necessário para nos
fazer vencedores na peleja.
O
salmista estava sofrendo perseguições, aflito diante dos inimigos, olhos
esmorecidos, correndo risco de morte e de ir para a cova, exausto fisicamente e
sentindo-se desprovido da consolação de Deus. O coração quebrantado entende que
a dor é um processo de cura, não o fim da sua vida nem um castigo sem
propósito, mas um tempo de provação para se receber bênçãos e autoridade
espiritual por aqueles que são perseverantes na travessia de deserto e de vale.
É nesse cenário que ele comparou sua vida momentânea com um odre na fumaça,
pois o tempo na fumaça não dura para sempre, de modo que o salmista não perdeu
a confiança na verdade, na fidelidade, na misericórdia e no poder dos preceitos
e dos mandamentos de Deus. É uma lição para que saibamos suportar o sofrimento,
as aflições, as perseguições e as injustiças do mundo, pois são etapas do
fortalecimento interior, do espírito, da fé sincera e fiel.
Estar
debaixo da fumaça significa sujeição ao propósito de Deus, tempo de
transformação interior, sofrível e silenciosa - “Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente
não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada.” (Rm
8:18). A provação do povo de Deus é algo sério e necessário, vez que as
tribulações (no exterior) e as aflições (no interior) embora amargas e
angustiantes fazem o alinhamento dos pensamentos e sentimentos dos justos com o
propósito celestial para suas vidas. É o tempo da presença da glória de Deus,
que por várias se manifestou ao povo de Israel, como uma fumaça que enchia o
tabernáculo e o templo, por isso também é tempo de cura da alma e do espírito
do convertido que deseja ser odre na mão do Senhor.
Alongando-se,
sabe-se que a fumaça produz perseguições, humilhações, enfermidades e
privações. Ali exposto, o odre esfumaçado perdia sua aparência natural e ficava
enrugado. Isso tudo foi representado pelo salmista na negritude ou fuligem
presente na fumaça que o atingia como as ondas do mar atingem diuturnamente as
rochas onde se quebram. Ao mesmo tempo que a negritude da fumaça mudava o
aspecto exterior do odre, outra mudança mais importante ocorria no seu interior
provocada pelo calor invisível dissipado juntamente com a fumaça, mudando sua
estrutura fibrosa e aprimorando a calafetação interna, transformação vital para
mantê-lo como um recipiente resistente e apropriado a armazenar líquidos, bem
como o calor fazia um assepsia final e refinada nas paredes interiores do odre,
neutralizando os odores. Tudo que o calor fazia no interior do odre era
invisível e imperceptível aos olhos humanos, porém de valor imprescindível à
aprovação do odre.
Verifica-se
ser no interior do odre que as aflições atacam o sentimento, o pensamento e a
vontade do odre, local onde são eliminadas impurezas, tapadas brechas
espirituais e desarraigadas coisas da velha natureza carnal. As transformações
interiores servem ao amadurecimento espiritual dos odres, dando-lhe crescimento
na graça e na verdade de Cristo.
O tema
odre na fumaça envolve os vs. 81 a 88 (Salmos 119:81-88). O salmista inicia falando
da sua aflição e da esperança na palavra de Deus e conclui reafirmando sua
esperança na palavra de Deus – “Vivifica-me
segundo a tua benignidade; assim guardarei o testemunho da tua boca.” (Sl
119:88). Portanto, um odre aprovado guarda um tesouro inesgotável e valioso
dentro dele: a palavra de Deus, fonte da vida eterna.
Como
saber se um odre foi aprovado? Havia um teste. Ele era enchido com água, e se a
água não vazasse estava pronto e podia ser usado. Isso ocorre quando o homem e
a mulher santos ouvem e guardam a palavra de Deus no coração, passando a viver
pelo que ela diz e estão aptos a matar a sede de outras almas que precisam da
salvação que há em Cristo Jesus. O odre aprovado encontra o caminho da fé
perfeita, consistente neste ciclo: a palavra de Deus no coração gera fé (Rm
10:17), fé gera temor, temor gera obediência, obediência gera santidade,
santidade gera proximidade com Deus, fonte de todas as bênçãos. Todo aquele que
chega ao final da provação passa a ter mais intimidade com Deus, como ocorreu
com Jacó ao término do período de fumaça ou prova em Padã Arã, que durou vinte
anos (Gênesis 31:3). Muitos vão dizer: “nossa
quanto tempo Jacó ficou na fumaça, eu não suportaria!”. Todavia, vejam a
grandeza do propósito celestial que Deus tinha para aquele odre. Jacó se tornou
uma nação forte conforme prenunciado pela profecia (Gênesis 25:23), o povo escolhido
de Deus e da sua descendência nasceu o Jesus Cristo, o Filho de Deus, segundo a
carne. Não desamine, Deus também tem um grande propósito para sua vida!
Senhor
Deus, tu conheces nossa estrutura interior e todas suas fraquezas, ajuda-nos a
guardar no coração sua palavra como um odre aprovado, concedendo a seu povo os
dons espirituais disponíveis e o fruto do Espírito do Santo, ainda que tenhamos
que passar pelo tempo da fumaça.